segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Comer, peidar e amar

Antes minha rotina na semana era mais ou menos assim: acordava por volta das seis e quinze e me arrumava para depois de aproximadamente uma hora estar a caminho do meu trabalho com meu marido "Oscar" (temos só um carro que compartilhamos de forma feliz em 99% dos casos). Duas horas depois, eu chegava ao meu trabalho (preço que decidimos pagar para morar numa casa como sonhamos em meio à natureza). Duas horas pra ir e quase duas pra voltar. E nestas horas de trânsito por muitas vezes íamos lendo a Superinteressante que assinamos, um livro budista, ou um livro destes gurus inovadores do mercado. Ou ouvindo playlist nova que baixamos, contando piadas, conversando muito (em geral eu falando muito mais que o Leo). Depois das longas horas de trabalho, que nunca se resumiram a oito horas por dia, pois somos de TI, vínhamos pra casa se mais pro começo da semana ou íamos para nossa agitada vida social, de quarta pra frente: ora jantávamos fora, íamos ao cinema, ver peças stand ups, shows, enfim, se sofremos tanto por estarmos em São Paulo pelos ônus que esta cidade nos traz, fazíamos bom uso e fruto de seus bônus também. Quando vínhamos pra casa, eu adorava cozinhar (e isto explica muita coisa, todos os kilos a mais desde que nos encontramos). Cozinhava mesmo! As duas horas de trânsito pra casa nunca foram de me abater na cozinha. Eu fazia tudo aquilo que via na TV e meu maior desafio para emagrecer sempre foi resistir a uma boa pratada de arroz e feijão no jantar, fresquinhos que eu fazia todos os dias. Tomávamos nosso banho da noite e depois de nos fartarmos assistindo diariamente ao desenho de "Os Simpsons", Leo jogava vídeo-game e eu ou trabalhava um pouco mais, se eu estava em épocas de projetos difíceis como 3G, 4G, NG (rs), ou passava horas a dentro de atividades da ONG onde sou voluntária, a Make-A-Wish, uma ONG que realiza os verdadeiros sonhos de crianças e adolescentes com doenças graves para lhes mostrar que tudo é possível (a mesma que aparece no filme A Culpa é Das Estrelas). Muito frequentemente eu varava madrugada adentro em minhas atividades da ONG. Realizei sonhos incríveis graças a esta dedicação. Dormir a uma da manhã era prática de todos os dias. Dormir às três era algo que a acontecia pelo menos uma vez por semana. A gente descobre o sonho das crianças e tem que correr atrás das corretas alianças e parcerias, para patrocinar os sonhos. E a Internet sempre foi a ferramenta que me viabilizou chegar a estas realizações. A Internet nos conecta com QUALQUER pessoa do mundo! Acreditei nisto no dia que recebi um email resposta do próprio Gugu Liberato, sem nenhuma intermediação de empresário ou coisa assim. Sou coordenadora dos sonhos com celebridades da Make-A-Wish. Isto quer dizer que, quando o tipo do sonho da criança é "conhecer alguém", cai para que eu estabeleça contato com a tal celebridade (se nacional) e arranje o grande encontro para a realização. E assim viabilizei mais de quarenta deles em um ano, madrugadas adentro. É isso que eu adoro fazer na Internet: compartilhar e me relacionar. Fotografia também sempre foi uma paixão. Horas tirando e dias as tratando. Meu verdadeiro hobby. E isto também enchia minhas noites e finais de semana. Falar com muitos amigos, seja por qual mídia for, sempre foi também uma prática. Eu olhava pra mim e se tivesse que me resumir numa palavra seria entusiasmo. 
Aí engravidei.
Minha vida tinha se resumido em dormir e arrotar nas últimas oito semanas. 
Nada de noites adentro. Passou das dez estou caída de sono. No show do Jorge Benjor sai na metade e fui pro carro dormir. Até sábado não tinha passado mal nenhuma vez, só muito sono. Sono é que nem coceira: não dá nem pra reclamar. Na tentativa de ser uma boa mãe desde já, tenho obedecido ardentemente. Vou dormindo enquanto o Leo dirige uma hora e meia, deixo ele no trabalho, aí eu dirijo os outros trinta minutos até o meu trabalho e adivinhem: estaciono e durmo. Pelo menos meia hora todos os dias. Para só então conseguir subir pra minha mesa. Depois do almoço, só de pé nas reuniões pra parar acordada. Na hora de ir embora, contando no relógio o mínimo que tenho que fazer por dia, dirijo mais ou menos uma hora até o trabalho do Leo (por sair no horário de pico), ele pega o volante e eu durmo. Ele não tá nem se atualizando dos babados da empresa... Sem livros, sem compromissos, sem discussões filosóficas sobre vidas extraterrestres ou vida após a morte que costumávamos ter. Sem piadas. Ele pode vir ouvindo música, notícia ou futebol que eu nem vou criticar. Não sei se ele está em estado de graça por ter agora a esposa muda com que sempre sonhou ou se está estranhando tamanho silêncio. Dá uma certa insegurança tantas mudanças em relação ao casamento... Chegamos em casa e eu corro pro quarto com ventilador de teto ligado, com nojo de todos os cheiros não consigo cozinhar. E o Leo faz pacientemente a comida pra mim. Eu nunca sei dizer o que eu quero. Mas tenho toda ênfase para dizer o que não quero de jeito nenhum. Que saudade de bater uma pratada de pedreiro, confesso. Desde que descobri, emagreci quatro quilos...
Esta tem sido minha vida.
Por oito semanas se resumiu em dormir e arrotar.
Agora vejo ampliar: dormir, arrotar e enjoar.
Amiga Dani hoje falou pelo Whatsapp; "Segura a onda que está só começando."
PÉEEEM! RESPOSTA ERRADA! A resposta certa é: "tenha esperança que no quarto mês tudo melhora." Rsrs. E seguimos com esta esperança.
Em meio a um humor que não lembro de ter tido na vida, meio bege, meio morno, tenho a impressão de sentir quase uma tristeza. 
Mas ei que em meio a um minuto de sanidade, ao fazer carinho na minha barriga querendo que o bebê entenda que apesar dos pesares, eu o quero, e como desejo que esteja bem lá dentro dessa pança, começo a chorar. Em meio aos baixos dos últimos dias, eis que chegou meu ponto alto. Fiquei feliz. Como que tocada por um afago de um anjo. Me pego chorando de emoção com uma música no rádio que nem estava prestando tanta atenção. E pela primeira vez na vida, pude me imaginar o pegando nos meus braços, ainda cheio de sangue, vivo, feliz e chorando. Fechei os olhos por alguns segundos (tive que abrir logo porque estava dirigindo) e desejei do fundo da minha alma ser mãe... Prestei atenção no fim da música e chorei ainda mais. Depois olhei a letra por inteiro e se eu puder escolher uma música pro momento do meu parto, está escolhida... É esta a música que me conectou hoje e que me conectará daqui sete meses com esta alma que chamarei de meu filho ou minha filha...
Toda rotina pode ser resumida a nada. Posso ser este vazio agora, mas sei que se encherá de vida logo mais! 

Música do dia (a que eu quero que toque no meu parto): Pétala (Djavan)

O seu amor
Reluz
Que nem riqueza
Asa do meu destino
Clareza do tino
Pétala
De estrela caindo
Bem devagar...

Oh! meu amor!
Viver
É todo sacrifício
Feito em seu nome
Quanto mais desejo
Um beijo, um beijo seu
Muito mais eu vejo
Gosto em viver
Viver!

Por ser exato
O amor não cabe em si
Por ser encantado
O amor revela-se
Por ser amor
Invade
E fim
!!...e fim.

 

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