Semana 29. 29 de 40, pras não grávidas que odeiam estas contagens de semanas, no meio do sétimo mês. Dia 12 de Maio entro no oitavo mês. Sinto meus nervos e sentimentos mais aflorados, barriga mais pesada e um cansaço que me estressa. Depender do outro pra pegar algo que caiu no chão, pra secar direito entre os vãos do dedo do pé, sentir dor nas costas ao lavar a pilha de louça que sempre fez de olhos fechados e obrigatoriamente ir num ritmo mais devagar é, pra mim, estressante. Fico irritada. E mesmo sabendo que é um treino de humildade, confesso que pra mim é difícil. Pedir encarecidamente é sempre um desafio. Tenho muito a aprender. A gente espera que o outro tenha sensibilidade e minimamente faça sem que você tenha que pedir, mas não rola. Um aprendizado.
Tanto a aprender que não sei nem por onde começo. Parece primeira aula de Eletromag: você sabe que vai ter que passar por aquilo, sabe que vai ser foda e não sabe nem por onde começar.
Ontem fiz o ultrassom do mês. A gente acorda antes das cinco da manhã feliz. Incrível! Espera o mês inteiro por este pequeno momento, de ver o seu bebê. Pega horas de trânsito e chega no horário. Sorrindo. Seu exame atrasa. Encaixaram um exame gemilar particular no seu primeiro horário, afinal, o combustível do mundo é dinheiro. Manda quem pode. Mas não tem problema: você está tão feliz que nem se incomoda que vai esperar mais, chegar atrasada em reunião importante do trabalho e tal. Entra pra fazer o exame e pega seu médico num dia ruim. Dr. Bortoletti nitidamente mal humorado, talvez pelo bendito encaixe, que fodeu sua agenda do dia inteiro (ele não deve ganhar comissão). Foi um chato e grosso por algumas vezes: tom de crítica para as fertilizações assistidas que têm trazido muitos gêmeos ao mundo (o encaixe era exame de gêmeos, ele contou) e eu fiquei pensando no quanto é fácil criticar o outro. Pensei em todas as queridas que não puderam engravidar naturalmente, as que lutam até hoje, suas estórias e batalhas, os exames dolorosos, as economias todas depositadas no sonho de uma fertilização in vitro, depois de já terem esgotado outras tentativas de injeções por meses e inseminações, todo o sonho e luta pra serem mães, aí vem um puto e "acha graça" dessa manipulação. Só ali já tive vontade de matá-lo. Acho que homens nunca terão a sensibilidade de uma mulher... Nunca! Depois ele disse que o Gabriel deixou a média dos bebês e passou a ser um bebê grande. Está com tamanho de duas semanas pra frente. Percentil 92 que eu não tenho puta idéia do que seja. Deixou no ar. Pra uma mãe gordinha como eu, a preocupação de estar fazendo errado. Senti algo bem longe de orgulho de ter um bebezão. Fiquei preocupada. Imaginem a maior pulga do mundo atrás da minha orelha. Melhor fazer uma dieta? Será que está tudo bem mesmo? Ninguém quer um filho obeso. Ele está gordinho? Ou obeso? Meu mundo meio que desabou. Vontade de chorar. Segurei firme. Senti uma enorme culpa peloa doces e milk shakes que tive vontade e comi/tomei. E em geral, a culpa desencadeia uma compulsão alimentar. Só quem é gordo entende essa bola de neve. Pros magros fica o discurso "ué então pára de comer!", mas o "baguio é loko", tipo craque que não adianta só dizer: "ué, então pára de fumar!". Mas enfim...
Seguimos com o ultrassom e veio a parte de medir as pelves renais do Bielzinho. Lembram da neoplasia discreta comum em meninos que ele apresentou a dois exames atrás? Continua. Discreta, mas continua. E isso acabou comigo. Eu estava tão confiante que viria um "agora está 100% ok. Acabou" mas não veio. A pelve direita que começou com 4,7mm, se tornou 4mm no mês passado e agora estava com 2,7mm. Ótimo! Normal. Mas a pelve esquerda, estava com 4mm, virou 4,7mm e agora 5,2mm. :(
Aumentou discretamente, mas aumentou. Médico manteve neoplasia discreta no exame e garantiu que não há com que se preocupar. Nesta idade gestacional, seria alarmante se passasse dos 7mm. Está abaixo. O que agradeço a Deus, obviamente. Mas continuo preocupada. Minimamente os rinzinhos dele estão tortos. Vem as nóias na cabeça: será que a culpa é minha? Rins zoados são os meus, herança genética do meu lado. Será? Minha avó materna morreu de parada renal, minha mãe tem o rim com uma formaçãozinha defeituosa (nada grave, graças a Deus) e os meus são meu ponto fraco: já tive infecção de rim e alguns pedregulhos por lá. Já até pari uma pedra! Enfim. Segurei firme e passei o dia tentando elevar o pensamento, focando no positivo, mantras que tudo ficará bem e que isso não é nada grave. No final do exame, que tirando isso mostrou que estava tudo bem, placenta, líquido, tudo bem, graças a Deus, o médico disse que não iria dar pra ver o rosto do Gabriel: ele estava de costas de novo. Vi a nuca do pequeno. Aí eu soltei um "Aaaaah, que triste!" E só. E pronto, o médico que estava realmente chatão veio com o discurso de velho: "Triste? Triste são as grávidas que vêm aqui e precisam sair correndo pra tirar o bebê antes da hora por risco de vida, problema de placenta, líquido amniótico e outras coisas. Esse negócio de querer ver a carinha do bebê é a parte folclórica da gravidez. Isso não importa! O que importa é que ele está bem, ok?!"
Ok. Óbvio que ok. Mas que pecado tem em eu ter curiosidade de ver o rostinho do meu filho? A esta altura parece que estou há uma vida grávida!!! Aliás, esta sensação é bem bipolar: tem hora que parece que passa rápido demais. Tem hora que parece que estou há anos grávida. Mal consigo me lembrar da vida antes de engravidar. Acostumei. Depois de 2 dias mal dormidos por conta da barriga que está grande demais, sapequei dois travesseiros enormes, um de cada lado, pra apoiar a barriga pra qualquer lado que eu vire e pronto: já estou dormindo bem e a noite toda. Exceto pelas idas ao banheiro. Antes desta técnica das barricadas de travesseiro, eu acordava a noite toda pra trocar o travesseiro de lado cada vez que eu virava. Era péssimo! Agora as viradas não me acordam. Pois viro muitas vezes na noite. Quadril se torna um ponto grande de contato com a cama e dói se ficar muito tempo o peso em cima de um lado só. Deitar sobre seu lado direito não rola por muito tempo. Tem uma veia que incomoda. Li e comprovei. Enfim, terceiro trimestre não é confortável, e isto é um fato. Tenho dado graças a Deus por ter meu trabalho e por estar trabalhando bastante: isto tem abençoado meu sono, salve o cansaço! Duro não tem sido dormir, mas sim acordar.
Tomei a vacina reforço ddPA. Contra coqueluche. Em 2013, sobrinho da minha roommate Dani faleceu com um mês de vida desta doença, num surto que teve em São Paulo. Nunca esqueço de toda a dor. Na mesma época, filhinha da minha amiga Renata pegou coqueluche também antes dos dois meses e ficou dias e dias na UTI. Nunca esqueço a dor! Pesquisei na Internet e vi que até hoje o Governo faz campanha para grávidas acima de 27 semanas completas para tomarem esta vacina. A partir da semana 27 (e até 20 dias antes do parto), a grávida tomando protege o bebê até seu segundo mês de vida, quando ele tomará a sua própria dose de vacina contra a Coqueluche (tosse comprida). Meu médico disse que não consta no "Check List" do Pré-Natal mas que não havia contra indicações e então fui no postinho e tomei. Papai Leo foi comigo, conpanheiro como sempre. Braço ficou um pouco dolorido mas nada demais. Só me arrependo de não ter pedido pra ser no direito, já que prefiro dormir do lado esquerdo e foi dolorido deitar em cima do braço no dia da vacina. Médico da minha amiga que está grávida como eu disse que sou "apocalíptica" e que achava bobagem tomar esta vacina. Que a doença acontece em pessoas que moram em lugares sem saneamento básico ou que têm muito contato com emigrantes do Haiti e lugares parecidos. Pensei comigp: "sabe de nada, inocente!" Nem a família da minha amiga Dani nem da minha amiga Renata, que sofreram com esta doença, têm este perfil. Ter no meu ciclo de amigos 2 casos, foi o suficiente pra eu achar importante me vacinar. E eu aconselho.
Que mais de novidade?
Comprei no Groupon ensaio fotográfico simples, mesmo de mal do meu corpo, pra ter fotos de gestante e não me arrepender depois. Vai ser em Maio. No Ibirapuera. Hoooo, gente. Vergonha! Jurava que era em estúdio. Mas ok. Tá na chuva é pra se molhar. Pelo preço baixo que foi, tá bom. Leo não gostou da idéia e prometi pra ele que não precisa ele sair em muitas fotos. "Dois baleias" como ele disse, ninguém merece.
A propósito, dizer a um gordo que ele está gordo não costuma ajudar em nada. Fica a dica. A gente tem espelho. Só pra constar. Amiga de longa data chateou bastante essa sexta de manhã com mensagem no whatsapp "você vai rolar!". Juro que acho graça das pessoas tocarem assim nas feridas uma das outras, até sangrar. "Ah, você está gorda! Cuidado!" "Ah, não acredito que vai optar por cesariana sem nem tentar parto normal!" Graças a Deus ser assim não é do meu feitio. Eu não julgo nem quem aborta (que pra mim é algo realmente doído de aceitar) e acho graça ao me ver sendo julgada por pessoas que o fizeram no passado, quiseram ser respeitadas, o foram mas são incapazes de aceitar a escolha de um parto, por exemplo. Enfim. A gente manda à merda e segue a vida gorda mesmo. Ouvindo críticas mesmo.
Mas é por essas e outras que não estava a grávida mais feliz ontem, nem hoje. E todo mundo que me conhece bem sabia que não estava tudo bem. Mas eu dizia que estava só cansada. De fato acho que sim, cansada de ter que estar tudo bem o tempo todo. Terminei o dia chorando um monte pra desabafar e confessando sentimentos diversos com amigas mais próximas.
Depois do ultrassom, começo a entender o lance de que "Ser mãe é pura entrega". E aos poucos você percebe que tem muito amor e muito pouco controle das coisas. Você deseja tanto que tudo seja perfeito, que se esquece que o perfeito nem existe!...
Música do Dia: Sensível Demais (Christian & Ralf)
"Hoje eu tive medo
De acordar de um sonho lindo
Garantir, reter,
Guardar essa esperança
Andei paraísos,
Descaminhos, precipícios
Ao seu lado eu vejo
Que ainda sou uma criança
Sensível demais,
Eu sou um alguém que chora,
Por qualquer lembrança de nós dois
Sensível demais,
Você me deixou, e agora
Como dominar as emoções..."