Pensamento positivo não foi suficiente para não passar pelo que passam a maior parte das grávidas. E talvez eu poste o que algumas sentiram mas em geral não se tem coragem de falar. Tive um fim de semana ruim. Sensação de intoxicação alimentar só que com a parte de estômago mega embrulhado e dor de cabeça. Nojo de cheiros que me impediram de cozinhar e picos emocionais que me fizeram chorar o sãbado todo. Ora de solidão, ora porque o Chaves morreu, ora de culpa por não conseguir comer o que deveria estar comendo para a formação do meu filho, ora por aí vai. Chorei muito. E infelizmente senti pela primeira vez aquela sensação de "o que eu fiz da minha vida?" quando meu marido passou o dia todo fazendo cerveja para o Natal na casa dos pais dele, teve que ir sozinho ver a peça teatral da minha sobrinha (infelizmente não consegui ir. Estava muito indisposta) e ao pedir que ele viesse embora às 22h, quando acabasse, ele disse que não sabia, pois como estava dando carona para a família, talvez parassem pra jantar. Oi? Entrei em xilique mode (e sinceramente acho que entraria independente dos hormônios pois acho o cúmulo do egoísmo e da falta de solidariedade), discutimos (quer dizer, só eu falei) e eu me arrependi de ter engravidado. Foi péssimo sentir isto. Muita culpa depois, mas seria hipocrisia dizer que nunca senti. Depois chorei horrores, tomei um banho bastante longo, com banquinho embaixo do chuveiro (tive que esquecer da crise da água) e me redimi. Mas sei que certas coisas simplesmente sempre serão iguais. São as queixas de nossas mães e de minhas amigas que já são mães. O otimista tem a péssima mania de achar que coisas ruins não acontecerão com ele. Mas óbvio que acontecem. Ao me ver sozinha o dia inteiro, sem conseguir cozinhar, a única coisa que eu queria, era minha mãe. A primeira briga depois de anos e anos juntos sem brigar. Achei que passaria ilesa mas no way. Homem tem sempre um "quê" de folgado que não dá pra aceitar. Por fim ele veio direto pra casa, fez a janta que eu pedi (batatinhas com carne moída sem nenhum tempero, só sal) e está um clima horrível.
Por tudo que falei e da forma que falei, acho que deixei claro minhas expectativas mínimas de envolvimento. Não fiz sozinha este bebê e tão pouco escolhi passar mal. Adoraria estar tão bem como antes. As pessoas tem que entender que nem sempre é possível fazer apenas o que a gente gosta. Por vezes é preciso fazermos o que temos que fazer e o nome disto é responsabilidade.
Fim de semana difícil. Pelos passares mal do corpo e da alma. Espero mesmo que tudo isto passe.
Hoje entendi a parte que minhas amigas me falavam: "Nem tudo são flores..."
De fato.
Pensei em todas as mulheres que conheço e que já são mães. Lindas mães. Boas mães. Pensei em tudo que já passaram e passei a admirá-las muito mais como seres humanos.
Mas vai passar. Não há mal que perdure, já dizia Chico Xavier.
Música do Dia: Isso (Titãs)
"Isso
Que acontece com a gente Acontece sempre com qualquer casal Isso Ataca de repente Não respeita cor, credo ou classe social Isso, isso
Parecia que não ia acontecer com a genteNosso amor era tão firme, forte e diferente..."
Se força do pensamento tem algum poder, terei uma gravidez
Disney.
Se as palavras têm, de fato, algum poder, serei um benchmark
da gravidez.
Isto porque tenho feito um enorme esforço para filtrar
apenas as coisas boas dentre as milhões de informações que recebo sobre
gestação todos os dias. Viver na era da Internet tem lá suas vantagens, mas,
como às vezes eu acho mesmo que a ignorância é uma benção, então acho que o
excesso de informações pode ser maléfico também. Acho que o maior desafio é
saber filtrar. Pegar o que é bom e descartar o que não serve pra você.
Então tem sido esta minha estratégia: ouvir o que tem de
mais feliz nos relatos de cada amiga que já foi mãe e mentalizar: a minha será
assim. Tem dado minimamente certo. Não enjoei nenhuma vez. Nem sangrou minha
gengiva. Nem tive cólicas. Nem outros sintomas que prefiro não ficar lendo na
Larousse da Gravidez (ler aquilo é mais complexo que estudar pra certificação
PMBOK! Tenho olhado as figuras e leio por cima algumas coisas).
Então eu pego o
melhor caso de cada tema e mentalizo e tomo as ações para que seja simples
daquela forma pra mim. Por exemplo, minha amiga Rosana sempre foi a que deu os
relatos mais bonitos sobre amamentação. O bico do seio dela não rachou, nunca
sentiu dor nenhuma dando de mamar e quando deu a luz tinha tanto leite que ao
tomar banho ia lavando os azulejos com leite que ia lhe saindo do peito. Ela
doava todos os dias para o Banco de Leite, como boa ação para os bebês que não
tinham a mesma sorte da Juju e toda vez que me conta tudo isto, sorri tão
lindamente que eu pensei: “Eu também vou ser assim.”
Ela me orientou a fazer o que ela fez: passar dez vezes a
bucha natural em cada seio em todos os banhos desde o dia que descobrimos estar
grávidas. Tratei de comprar a bendita bucha dura e tenho feito exatamente como
ela disse. Tem um provérbio que adoro que fala “Reze, mexendo os pés”. E é o
que tento fazer: desejo, rezo, mentalizo, mas sigo os conselhos destas mães que
são a boa notícia de cada tema. Pois tem sempre a versão mais apocalíptica da
coisa: o peito que sangrava, o leite que empedrou ou nem veio, o susto que
cortou todo o leite. Mas farei minha parte pensando e agindo positivo em tudo
que eu puder. Tenho tomado suco natural, comendo mamão todos os dias (apesar da
ânsia que sempre tive e continuo tendo a cada manhã por odiar mamão), e me
alimentado corretamente na tentativa de não ter hemorroidas. Minha cunhada
Carmen nunca nem tinha ouvido falar que era comum ter isto na gravidez. Estou
que nem ela: comendo direitinho e fingindo que esse negócio não existe. E
quanto aos hormônios? As pessoas sempre me preparam para o pior: é a pior TPM
do mundo! Você vai ver! Vai querer matar Deus e o mundo. E eu penso comigo: “não
há de mudar tanto... nunca fui muito meiga.” Mas tenho aamiga Noemi como exemplo e quero ser como
ela. Que sempre relata que os meses de gestação dela foram os mais felizes de
sua vida! Que ela não sabe dizer o que aconteceu, mas ela tinha um humor, uma
felicidade, que não cabia em si. Eu também vou ser assim. Ou como diz meu amigo
japonês, “vive aí no cinco bola.” Referindo-se a 5.0, ou seja, na média. Sem
muitos altos nem muitos baixos. No dia que reclamei a ele que eu andava meio “bege”...
“Melhor assim.”
Então é assim. Sem enjôos, apenas muito sono (mas tem coisa
mais deliciosa que dormir? Não dá pra reclamar. Sinto uma dorzinha de cabeça
dessas que só incomodam. Parece que estou andando de ônibus o dia todo. Mas
nada de remédios nem Mimimis. Vai passar.
Quando falo do meu sono, as versões mais apocalípticas me dizem: "Aproveita pra dormir agora porque você nunca mais vai conseguir dormir depois que seu filho nascer."
Uau!
Eu respondo:
"Mas eu nunca fui de dormir muito. Meu hábito era dormir à uma da manhã e acordar às seis."
"Não. Mas você vai ver. Vai virar um zumbi!"
Uau!
"Mas eu estou acostumada. Trabalho com IT. Viro várias madrugadas."
"Não, mas você vai ver. Vai ser janela de cutover todos os dias! Você vai se transformar num Walking Dead!"
Uau! Eu fico pensando: "Tem que ser assim? Difícil assim? Será uma regra?"
"Mas eu fiz Leader Training. Fiquei já mais de sessenta horas sem dormir e não morri."
"Mas você vai ver. Você vai morrer."
E eu desisto de discutir. Parece até praga! hahahaha
Meu sonho sempre foi ser uma mãe simples.
Depois de me formar em Engenharia sem nunca ter comprado uma
HP48G, é a vez do desafio de ser a mãe sem Mimimis e sem enxoval de Miami.
A sorte está lançada: e viva meu Conto de Fadas!
Música do Dia: Lua de Cristal (Xuxa)
"Tudo pode ser, se quiser será O sonho sempre vem pra quem sonhar Tudo pode ser, só basta acreditar Tudo que tiver que ser, será
Tudo que eu fizer Eu vou tentar melhor do que já fiz Esteja o meu destino onde estiver Eu vou buscar a sorte e ser feliz
Tudo que eu quiser O cara lá de cima vai me dar Me dar toda coragem que puder Que não me falte forças pra lutar"
Era pra eu estar com a pele mais bonita, com o cabelo
perfeito e sentindo o maior amor do mundo? Não estou.
Na sétima semana de gravidez, lucidamente falando, é ainda
uma ficha semi-caída. Aquela coisa que você sabe que está grávida, passou pelos
picos de felicidade de descoberta e entra numa onda estranha de sentimentos.
Não é uma montanha russa, pois não tenho sentido pontos tão altos. Em geral
estou bem, normal, nem feliz nem triste e oscilo para o “que tudo estranho,
queria ficar dormindo”. Sendo bem sincera é assim que venho me sentindo nos
últimos dias.
Estou ansiosa pelo ultrassom da semana que vem que eu verei
o coração bater. Mas com certeza hormônios estão mudando dentro de mim e não,
não é frescura mudar o comportamento em função deles.
Estou numa fase bege. Nada é muito nada. E eu que sempre fui
intensa / xiita, tenho estranhado um bocado esta fase morna / mais ou menos.
Espero que passe logo.
No trabalho as pessoas insistem em achar que gravidez vem
acompanhada de um pó de pirimpimpim. Eu sempre fui mais pro estilo nervosa, em
geral não me conformo com algumas coisas, e odeio gente preguiçosa. Obviamente,
estou grávida e não emaconhada. Continuo me irritando. Adoraria não me irritar,
mas nada mudou em relação a isto ainda. Continuo com meu tradicional “Namaste,
motherfuckers”, que mostra exatamente a minha busca infinita para ser uma
pessoa zen versus a pessoa “zen” paciência que realmente sou.
Vamos seguir acompanhando e relatando pra ver estes
hormônios o que fazem com a cabeça de uma mulher. Por hora, bege.
Música do Dia: Socorro (Arnaldo Antunes)
Socorro Não estou sentindo nada Nem medo, nem calor, nem fogo Não vai dar mais pra chorar Nem pra rir
Socorro Alguma alma, mesmo que penada Me empreste suas penas Já não sinto amor, nem dor Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração Que esse já não bate nem apanha Por favor! Uma emoção pequena, qualquer coisa!
- “Tá doido? Cê é nazista nesta
por#@ pra querer um negócio desses?” As pessoas têm muitas
expectativas em cima de uma gravidez. Não há de ser pecado. Mas acho que a
gente poderia ser menos egocêntrico. Afinal, é uma vida que está começando e
definitivamente a missão deste ser humano não há de ser atender as suas
expectativas. Mas às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas jamais
entenderão este tipo de coisa. Fui grosseira com o Leo no dia
que ele imaginou o bebê com olho azul, como o azul dos olhos do pai dele. Achei
vaidoso demais. Depois ele se explicou e disse que não era um desejo, mas sim
como ele imaginava. E assim foi perdoado. Antes mesmo de engravidarmos também
já tinha um fato onde discordei em gênero, número e grau de colocar o nome de nosso possível futuro filho de
Sebastião José, para homenagear os avós. Não concordo. “Se você ama muito seu
pai, vai lá e abraça ele. " A criança não é homenagem. Porque normalmente vejo os
comentários das pessoas em relação a bebês que acabaram de nascer e sinto muito
isto: expectativas próprias pra nome, pra o que vestir, como cuidar, enfim.
Parece que perdem mesmo o foco que é a criança. Quando dei a notícia de que
estava grávida, uma lembrança que tenho é que teve uma pessoa da família que não
me lembro antes ter me dito “eu te amo”. E ao me ouvir dizer que estava
grávida, gritou três vezes enquanto me abraçava: “eu te amo, eu te amo, eu te
amo”. Que coisa! Será que me ama pelo que sou ou por ter viabilizado a
realização do seu sonho com meu filho? Fiquei meio pensativa no dia. Depois
assimilei e numa busca eterna de não ser amarga (e com a ajuda de conselhos da
amiga Luciana, presente em todos os momentos) compreendi que na verdade talvez a
pessoa sempre tenha me amado e no ápice daquela emoção, encontrou coragem pra
dizer. Só isso. Acreditei nisto. Porque adoro finais felizes. Mas o fato é que às vezes
colocamos expectativas demais, próprias, em cima de uma vida que surgirá entre
nós, mas não para nós. E em meio aos pensamentos e
devaneios da minha gestação, obviamente tive o clássico: “Será que meu filho
será saudável e perfeito (perfeito, do ponto de vista de saúde) ? “ E foi mais um dia em que chorei.
Ando emotiva. Quando me peguei rezando, vi que pedia um filho saudável e
perfeito. E veio à tona todo esse lance de expectativas próprias. Quando uma
mãe pede que o filho não tenha Síndrome de Down, por exemplo, será MESMO que
ela pede em função da criança? Ou muito mais em função dela mesma? Pensei muito
a respeito. Eu não conheço uma criança com Síndrome de Down infeliz. De fato
são apenas especiais. Me vi, porque não, tão humana quanto as pessoas que me
chamaram a atenção por serem egocêntricas. Costuma ser assim: o que mais nos
incomoda no outro, ou é algo repudiante a ponto de não conseguirmos compreender
ou é um defeito que naquele momento não conseguimos enxergar em nós mesmos. O
que tem de menos egoísta do que eu querer um filho com condições perfeitas de
saúde quando comparo com o pedido de uma menina de olhos azuis? Quase nada. O fato é: a gente não sabe a
missão do pequeno ser que decidiu encarnar ao nosso lado. Mas de cara temos
nossos anseios e medos. E esta é uma das minhas. Desejo, do fundo do meu
coração, que meu filho ou filha seja saudável, perfeito e feliz. Não vou ser
hipócrita. Sou de carne, osso e pecado. E por isto quando rezo, rezo: “Seja
feita a VOSSA vontade, mas desde que seja assim, do meu jeito.” Mas o faço de forma consciente de
que isto é minha limitação espiritual neste momento e que este é o ponto menos
egoísta que hoje posso chegar. Mas certa de que Deus tem Seu plano e de que
ninguém nasce pronto, mas sempre nasce capaz.
Música do Dia: Entre Prados e
Campinas (Padre Zezinho)
“Pelos prados e
campinas verdejantes eu vou
É o Senhor que me leva a descansar
Junto às fontes de águas puras repousantes eu vou
Minhas forças o Senhor vai animar
Tu és, Senhor, o meu pastor
Por isso nada em minha vida faltará
Nos caminhos mais
seguros junto d'Ele eu vou
E pra sempre o Seu nome eu honrarei
Se eu encontro mil abismos nos caminhos eu vou
Segurança sempre tenho em suas mãos
Ao banquete em sua casa muito alegre eu vou
Um lugar em Sua mesa me preparou
Ele unge minha fronte e me faz ser feliz
E transborda a minha taça em Seu amor
Com alegria e esperança caminhando eu vou
Minha vida está sempre em suas mãos
E na casa do Senhor eu irei habitar
E este canto para sempre irei cantar”
Quando falo “acho graça”, é uma
forma socializada de dizer que “não acho um pingo de graça”, ou mais
precisamente, que “fico puta” com certas coisas.
Numa bela tarde começamos uma
enquete aqui no escritório de qual será o sexo do bebê. Leo acha que vai ser
menina (na verdade ele quer que seja menina, rs) e eu já acho que será menino,
visto que sonhei. Enfim, quase todos os meninos que trabalham comigo acham que
é menino e quase todas as meninas acham que é menina. Eu não apostaria um real:
eu nunca acerto! Não vou fazer o exame de seis semanas e trezentos reais para
saber desde agora o sexo do bebê. Nada contra quem o faça mas somos curiosos na
média, mamãe e papai. Já tínhamos os nomes meio na cabeça desde a época que
ainda namorávamos e foram inspirados em músicas que amamos. Se for menino, vai
se chamar Gabriel. Por causa da música OITO ANOS que conhecemos na voz de
Adriana Calcanhoto mas que na verdade foi composta por Paula Toller para seu
filho. É uma graça pois fala de várias perguntas que as crianças fazem aos seus
pais e é algo que realmente nos encanta, pensar neste momento em que talvez
usemos o que aprendemos assinando anos e anos da Revista Superinteressante (e
graças a Deus eles chegarão pós Google, nossa vida será mais fácil). Se for
menina, vai se chamar Dandara, inspirados pela música do Ivan Lins (também
interpretada por Simone) que descreve uma moça que ama a liberdade. Talvez
justamente porque nosso maior anseio como pais é de criar um ser humano livre.
Dandara é um nome africano, nosso povo e viagem preferidos, e é o nome de uma
heroína, esposa do Zumbi dos Palmares, importante figura na história da
Humanidade. Descobrir tudo isto nos fez gostar ainda mais do nome. Minha mãe e
minha sogra não gostam.
“- Prefiro Sofia”, reivindicou
minha sogra. E eu sorri. A gente abortou nomes que a gente planejava com outros
namorados e namoradas. No way.
Minha mãe também não gostou. No
dia seguinte, falou logo cedo:
“- Pensei melhor e acho que
depois eu me acostumo com Dandara. Está sendo como quando escolheram
Valentina”.
Eu falei pra vovó:
“- Não se preocupa que você vai
amar mesmo que se chame Erinalda.” E ri.
A gente não liga se não é todo
mundo que gosta. Porque a gente gosta MESMO e está tão longe de ser diferente,
pois estes nomes estavam tão fortes e presentes em nossos sonhos, que não
poderiam ser outros. Não foi mesmo uma questão de pressa.
Dandara parece verbo. ‘ Dandar,
pra ganhar papá!’ Pensei comigo. Eu dandei, Tu dandara, Ele dandara. Futuro do Pretérito. Vou começar a explicar assim. Hahahaha!
E pensei também em algum Gabriel mais pop que eu goste, foi quando veio logo Gabriel, o
Pensador, porque do Anjo Gabriel não manjo muito. Pra simplificar o discurso.
Mas voltando a enquete, é
impressionante como tem coisa que “eu acho graça”. Era enquete pra saber o SEXO
do meu filho e não a OPÇÃO SEXUAL do meu filho. Acabei foi super irritada.
Em meio às pessoas opinando, teve
mais de duas ou três pessoas, extremamente preconceituosas, que sapecaram um
comentário desses que eu “acho graça”:
“- Não importa o sexo. O que
importa é que o sexo se mantenha até o fim da vida. Se for menino, que continue
menino.”
Oi? Uma grande amiga já tinha
alertado ao comentário padrão mas achei que demoraria um pouco mais para ouvir
tamanha barbaridade.
“- Estamos perguntando o SEXO.
Filho meu vai poder escolher ser gay mas nunca faria enquete desta parte.”
“- Não, Ana. Vai ser menino
homem. Vira pra lá essa boca sobre gay.”
Viro nada. Minha boca vai ficar
aqui. Que ridículo as pessoas falarem disto como se fosse uma maldição!
“- Meu filho ou filha poderá ser
gay em paz, se depender de nós.”
“- Não. Será homem, bonito, de
barba e te dará um neto.”
“- Ele pode ser tudo isso e mais
gay.”
“- Você não sabe o absurdo que
está falando.”
Desisti. Porque se eu acho “tanta
graça” em gente intolerante e preconceituosa, não posso ser um espelho desse
tipo de gente e ser intolerante com seu preconceito. Entendi que cada um dá o
que de melhor pode oferecer. E, às vezes, isto é tudo. Senti compaixão. E não
discuti mais não. Mas eis que um mamífero faz seu comentário e você percebe que
o céu é o limite:
“- Talvez seja hermafrodita.”
Grávida ouve cada merda. Vocês
não têm noção...
Músicas do Dia:
Oito Anos (Adriana Calcanhotto)
Por que você é Flamengo e meu pai Botafogo? O que significa “Impávido Colosso”? Por que os ossos doem enquanto a gente dorme? Por que os dentes caem? Por onde os filhos saem? Por que os dedos murcham quando estou no banho? Por que as ruas enchem quando está chovendo? Quanto é mil trilhões vezes infinito? Quem é Jesus Cristo? Onde estão meus primos? Well, well, well Gabriel… Por que o fogo queima? Por que a lua é branca? Por que a Terra roda? Por que deitar agora? Por que as cobras matam? Por que o vidro embaça? Por que você se pinta? Por que o tempo passa? Por que que a gente espirra? Por que as unhas crescem? Por que o sangue corre? Por que que a gente morre? Do qué é feita a nuvem? Do qué é feita a neve? Como é que se escreve réveillon?
Dandara (Ivan Lins) Ela tem nome de mulher guerreira E se veste de um jeito que só ela Ela vive entre o aqui e o alheio As meninas não gostam muito dela
Ela tem um tribal no tornozelo E na nuca adormece uma serpente O que faz ela ser quase um segredo É ser ela assim, tão transparente Ela é livre e ser livre a faz brilhar Ela é filha da terra,céu e mar Dandara Ela faz mechas claras no cabelo E caminha na areia pelo raso Eu procuro saber os seus roteiros Pra fingir que a encontro por acaso Ela fala num celular vermelho Com amigos e com seu namorado Ela tem perto dela o mundo inteiro E à volta outro mundo, admirado Ela é livre e ser livre a faz brilhar Ela é filha da terra,céu e mar Dandara Dandara...
O medo de estar comemorando prematuramente a gravidez acabou quando recebi um pacotinho surpresa em minha mesa. Era um presente de uma pessoa muito querida, Camila, noiva do Alisson que trabalha comigo. Não nos conhecemos pessoalmente mas sei o quanto ela é especial por ver o Alisson tão apaixonado e por saber de suas estórias de vida. Ela deu três lindos bodyzinhos brancos para o baby e a mensagem que trocamos depois por e-mail foi tão importante para mim: “O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida em abundância.“ (Jô 10:10). Era basicamente um conselho de não tenha medo. Ela escreveu: “Não deixe nada de negativo roubar a cena... porque o plano de Deus é vida. E vida em abundância.” Se eu esperava um sinal para relaxar e ser feliz, este foi pra mim o sinal. Não voltei a pensar neste medo.
Lembrou-me aquela frase: “E por acreditar em anjos, eles existiam”. Tenho muitos ao meu lado, no formato de família, de amigos, e até pessoas aparentemente estranhas mas com quem posso sentir laços inexplicáveis e sentir veracidade nos sentimentos. É sempre intenso.
Mas estranhamente me senti triste. De outra forma, desta vez. Olhava para o Leo com tanta gratidão, que parecia desta vez não amá-lo o suficiente. Desde que descobrimos ele tem sido tão mais carinhoso, paciente e cuidadoso... O que senti naquele dia foi uma espécie de culpa por ele não ser mais, o ser mais importante de minha vida. Foi estranho. Sempre tive certeza do quanto o amo, mas pela primeira vez parecia ser pouco. Lembrei de uma amiga grávida contando que sonhou que entrou um ladrão em sua casa e que ela pegou os dois filhos e jogou o marido pro ladrão. E que ela não tinha coragem de contar isto para o marido e se sentia mal por isto. Mas eu a compreendi profundamente. Meu elo com o Leo sempre foi tão mais que simplesmente marido e mulher, amo tanto a sua alma, sua amizade, sua companhia, seu sorriso e sua forma de me fazer sorrir... E agora sei que o amarei ainda mais como pai dos meus filhos, da forma que sempre sonhamos, mas tenho que confessar que senti esse “vazio”. Cheguei a chorar na hora do almoço, com uma grande amiga confidente. Que me abraçou, me compreendeu e disse que iria ficar tudo bem. No mesmo dia, coincidentemente, Leo pediu pra irmos ao show do Jorge Benjor, que ele ama de paixão. E eu aceitei.
Shows do Jorge Benjor são fod*. O cara deve cheirar e acha que todo o público cheira. Nunca menos de duas horas. Estava marcado para começar às onze, no Espaço das Américas que é uma casa de shows imensa (pra minha sorte não estava cheio) e obviamente começou a meia noite, de uma sexta-feira, que tínhamos todos acordado cedo para enfrentar um longo dia de trabalho. Achei o que chamei de a melhor forma: fomos ao show com o carro (ainda que o estacionamento ao lado fosse mais caro que o próprio ingresso) e quando me cansei, por volta da uma e quinze, fui dormir no carro, onde, por graça de Deus e herança genética do Seu Tiãozinho, consigo dormir tão bem quanto em uma cama King Size. Leo chegou no carro depois das três, com a Clau e a Rosi, minhas irmãs, feliz da vida, radiante de alegria, contando como foram as partes que eu perdi. Voltei a me sentir feliz, apesar de cansada. Não quero que a gravidez seja algo que modifique a minha essência. Não quero ser egoísta ao extremo, talvez um pouco mais do que seria se fosse só eu e eu. Quero cuidar do bebê, do meu corpo, de todos os detalhes, mas quero, antes de mais nada, continuar amando aqueles que amo, continuar sorrindo e fazendo sorrir. Nenhum extremo é bom. Quero o equilíbrio. E acho que um grande desafio que sempre achei que teria, e acho que é real, é de manter a identidade além de ser mãe. Continuar tendo meu mundo apesar de um novo mundo que embarco. Que eu possa ser esposa, amiga, filha, irmã, que eu possa continuar vibrando com as minhas realizações e ser a melhor mãe que meu filho poderia ter. Esta é minha vontade.
Talvez em posts futuros eu escreva coisas totalmente diferentes disto. Mas hoje, enquanto os hormônios ainda estão talvez brandos, esta é minha forma de pensar. Acho que tem que rolar uma consciência pra que, com a bendita desculpa dos hormônios, não nos transformemos em algo que nunca fomos, simplesmente porque estamos nos permitindo... Vi casamentos e amizades acabarem por que as pessoas "se permitiram" demais. Tem que rolar um equilíbrio. Se eu vou conseguir, é outro papo. Mas que eu tenho a consciência, eu tenho.
Mas o que eu queria dividir neste post é que tem sido um turbilhão de emoções. E dúvidas. E aspirações. E de repente me vi como a pessoa mais encanada e medrosa do mundo.
Estava receosa de fazer gostosinho também (forma carinhosa que tenho de dizer transar). Mesmo que o médico e amigas dissessem que tudo bem. Mas decidi superar e, para o meu próprio bem, consegui. Tem mulher que relata que o libido aumenta na gestação. Pra mim nada mudou. Talvez ainda seja cedo. Eu estava era morrendo de medo. Eu ficava pensando: “O que o bebê vai pensar disso tudo? Será que ele vai pensar ‘Poxa! Eu aqui me formando e minha mãe aí fora, me zoando?!!' ”
Conseguir fazer amor foi importante por todo este contexto que tinha falado de não querer me isolar como figura unicamente de mãe. Voltei a me sentir mulher, além de mãe e percebi que a gente não pode ter “medo de estimação”. A gente só perde. Quando eles aparecem, a melhor coisa é pensar, raciocinar logicamente, chorar se preciso for, dividir e superar. A gente não tem que “Dar comidinha” nem "colocar pra dormir"... Tem uma tese que inventei que me ajudou a relaxar e aproveitar: Talvez os bebês que nascem com covinhas lindas, sejam os que foram “cutucados” por seus papais nas horas de gostosinho durante a gestação. Enfim. Como eu adoro covinhas, deu certo... Que cada gestante encontre sua própria forma de superar!
Música do Dia: Durma Medo Meu (O Teatro Mágico)
“Durma, Medo Meu
Durma, Medo Meu
Um não, às vezes um "não sei"
Janela, madrugada, luz tardia
E o medo nos acorda...”
Desde o momento que a minha ficha realmente caiu, que me dei conta que uma vida nasceu dentro de mim, um turbilhão de pensamentos e dúvidas passaram a habitar este mesmo "dentro". Dentre as dúvidas, "Em que momento que se faz o download da alma?"
Eu não sou de nenhuma religião especificamente. Para minha sorte, meu marido é igual. Meu primo padre costuma dizer que se eu acredito em tudo, na verdade eu não acredito em nada. Mas não é verdade. Para mim é muita pretensão achar que apenas uma delas está certa. Acho que toda religião tem sua doçura e sua importância para o bem da Humanidade e normalmente a parte que eu não concordo é a parte mais mundana, de regras e certezas que obviamente o ser humano, em sua ignorância, que determinou. Em resumo, eu acredito na vida após a morte na forma de reencarnação embora tenha sido criada no Catolicismo. Eu e o Leo sempre conversamos muito a respeito disto, e conjuntamente decidimos que também criaremos nossos filhos no Catolicismo por ser o Templo que mais nos sentimos bem em frequentar, por acreditar que fundamentos religiosos são importantíssimos na formação do ser humano e por ter a certeza que quando crescer terá a liberdade de escolher uma religião ou simplesmente uma fé, como em nosso caso, que melhor o represente. Mas enfim, por acreditar na reencarnação, fui pesquisar em que momento alma do bebê de fato passa a existir. A dúvida se acentuou quando no primeiro ultrassom não pudemos ver seu coração bater, pela precocidade do exame. Estava de cinco semanas e três dias. Nas imagens, apenas um saco gestacional. Meu médico pediu que eu fizesse este primeiro ultrassom para certificar-se se não estava em lugar errado (nas trompas, por exemplo) e para que pudéssemos datar com mais precisão o bebê. - Você não se assuste, porque se você estiver mesmo certa em suas contas, não vai ver nada, só um feijãozinho que ainda não se mexe. O coraçãozinho só a partir da sexta semana - Disse meu médico, Dr. Dalton Rodrigues. Um parênteses ao médico. Conheci o Dr. Dalton em 2000, há 14 anos atrás. Um maluco de pedra, sarrista, piadista e que tem uma das maiores virtudes que sempre sonhei para um obstetra: é simples. Uma pessoa que tende a simplificar as coisas. Nos primeiros anos que comecei a passar com ele, nas consultas anuais de rotina, levei uma vez minha mãe comigo que saiu desconjurando o protocolo do médico. "Ele faz muita brincadeira... Não conseguiria passar com um médico homem que tirasse tanto sarro." Pois eu sou o contrário. Quando chegou minha vez de ser atendida, que saiu uma gestante de sua sala, ouvi o grito lá de dentro: - Próxima vítima! Já entrei rindo. - Ué, mas de quinta só atendo gestantes... - Pois é, Dr. Chegou minha vez. Estou grávida. - Ah, então senta aí que preciso te colocar na lista das Loucas. Sim, porque você vai ficar louca e me deixar louco. Mal sabia ele que é desejando tanto não ficar louca que estava ali, sentada naquele consultório dele. Dr. Dalton fez partos de amiga e conhecidas. Ao total, fez mais de 15.000 partos. É um senhor dos seus sessenta e poucos anos. - Faz questão de parto normal ou cesária? - Doutor, quero que seja simples. - Então será como Deus quiser. Não forçaremos nenhuma barra para nenhum lado. Era disso que eu estava falando. Era isso que eu sempre quis. E ponto final. E acredito que ele fará o melhor por nós. Das crianças que conheço que ele fez o parto, duas de três nasceram de parto normal. Pra mim esse lance de parto é tipo guerra: não vamos treinar, nem ficar assistindo cenas, nem ficar tocando neste assunto. Na hora que tiver que ser, será. Expliquei pra ele do meu medo. - Fica tranquilo que este bebê vai sair daí. Da melhor forma. É. Disto eu tenho certeza. Não poderá ser como meus dentes do siso que há quinze anos adio em extrair por medo da dor... Neste caso será bem diferente.
- Mas, Doutor, se vou fazer o exame semana que vem e não ver nada, porque não espera sexta semana? - Porque e se você errou as contas? (Confiança é tudo mesmo nesta vida e, definitivamente eu não inspiro) - Que que tem? - Que que tem que o morfológico tem que ser exatamente entre a décima e décima primeira semana. E este eu não posso perder a data. É como na natureza que a gente sabe pela flor como será o fruto. Nesta semana temos que fazer o morfológico para saber se a criança terá alguma Síndrome. Porque depois a flor se fecha, e a gente não vê mais. - Mas não tem chance de eu estar errada. Eu sou PMO! Ele riu. E me mandou fazer. Eu tenho um APP. Sei a data da última menstruação (DUM - começo a entender siglas de grávidas e estranhamente contar o tempo por semanas), sei o dia que eu fiz gostosinho com o Leo. Sei quanto tempo tem. É o maior Projeto da minha vida! Acha que vou errar no cronograma??? Mas ok. Marquei o Ultrassom e o fizemos. A primeira foto do bebê. Como uma colega diz, meu "Camilzinho". Parece um feijão. De 8 mm. Que milagre é a vida. E foi olhando pra isto tudo que voltei pro tema de Deus, de espiritualidade. Às vezes, de exatas, ficamos exatos demais. Pensamos em tudo como se fosse um Diagrama de Blocos. Mas ver aquele pontinho dentro de mim, pensar como pode, a menor célula que é um espermatozoide do Leo (um entre mais de 300 milhões) se juntou com a minha maior célula (um óvulo desprendido e maduro) fazer nascer uma vi-da. Daquilo ali vão se fazer Os-sos! Tem noção de quanto "pó de pirimpimpim" tem nesta transformação? Se eu não acreditasse em Deus, passaria a acreditar.
Pois bem. Fiz o primeiro ultrassom e não poderia estar mais exata: 5 semanas e 3 dias. Aqui é Project Manager, rapaz! Olha aí, a primeira foto do bebê:
E tudo isto, encantada com o hardware do bebê. E eis que surgiu a dúvida do software. E a alma? Quando faz o download?
Segundo a minha crença, o espiritismo, o espírito já existe desde o momento exato da concepção. Num dos lugares que eu li sobre isto, dizia que, os espíritos, quando têm a sua chance de reencarnação, ficam TÃO felizes, TÃO eufóricos, que por vezes tentam se comunicar com a mãe e aparecem em sonho. Me arrepiou quando li. Eu sonhei com o menininho bebê, a cara do Léo, lembram? Antes de saber que eu estava grávida. Neste dia do sonho, recebi uma proposta de emprego para ser Coordenadora de uma área de Indicadores, que meu antigo gerente me indicou. Agradeci e disse que não participaria do processo por razões de projetos em andamento. Era este. Já havíamos decidido não mais adiar o sonho da maternidade e portanto, não era hora de mudar de emprego. Continuando, o espírito faz esse tipo de coisa para saber o nível de aceitação dos pais e fica alimentado de energias positivas quando é bem aceito por toda a família. Até os três meses, o espírito tem memória espiritual. Ou seja, no meu entendimento ele está ciente de tudo que já viveu e de tudo que escolheu viver na próxima vida. Está lá, com seu TO DO LIST na mão, revisando os pontos de atenção que precisa evoluir e tal. E de repente, quando chegar no quarto mês, PA-PUM. RESET TOTAL! Não lembra mais. Não tem mais memória espiritual e passa a ser um serzinho totalmente frágil, que dependerá de nós para viver, crescer em todos os sentidos. Isto não é mágico???
Fiquei encantada. E a resposta é: download de alma desde o primeiro segundo com atualização de software quando entra no quarto mês.
Desde que descobri isso, todos os dias me pego conversando em pensamento com um espírito que não é de criança. O espírito que será meu filho mas que, por hora, sabe de todas as coisas (até mais do que eu que só tenho memórias espirituais desta vida). E me pego em preces, rezando, orando, para que dê tudo certo em sua viagem para esta vida. Que eu possa fazê-lo um espírito de luz, cheio de felicidade!
Se eu entro no mercado, vou falando com ele, como se fosse um anjo que estivesse andando sempre do meu lado: - Este é o mercado que mais fico feliz em vir (Pão de Açúcar). Porque adoro ouvir estas músicas de piano. Este é o senhor que sempre me ajuda com o carrinho. Esta é a fruta preferida da mamãe. Sexta vamos ao show do cantor preferido do Papai. Jorge Benjor, boa gente. Você vai gostar! E por aí vou. Falando em pensamento com um espírito muito bem vindo. Me dá a ligeira impressão de que eu não mais me sentirei sozinha nesta vida. E a certeza de que não passarei mais um dia, se quer, sem fazer nem que seja uma pequena prece...
No mesmo dia em que o exame de farmácia deu positivo, corri para o ambulatório médico da empresa em que trabalho e pedi uma guia de exame de sangue Beta HCG. Naquele dia, pedi companhia para uma grande amiga me acompanhar no Laboratório e fiz o exame de sangue na hora do nosso almoço. Era a confirmação final que faltava. A Rô chorou como criança de emoção, antecipando-se ao resultado. E como minhas amigas são as melhores do mundo, naquela sala de espera já ganhei até o primeiro presente do bebê: um mordedor lindo em forma de macaco. Passamos o resto da tarde trabalhando e entre uma reunião e outra, eu e meu marido dando F5 na página de resultados, que, conforme informado, só saiu mesmo no dia seguinte. Às seis e pouco da manhã do dia seguinte a rotina: - Petita, acorda que já são seis e meia. - Posso dormir só mais cinco minutinhos (quem não chora não mama, eu sempre peço). - Não, olha isso! É verdade! Você está grávida! Comemoramos de novo. Abraços e felicidade. Lembrei daquela música do Cidade Negra: "Forte, sorte na vida, filhos feitos do amor!"....
Quando cheguei no trabalho a primeira pessoa com quem compartilhei foi com a Rô, minha amiga que me acompanhou no exame do dia anterior. Depois não me segurei e fui contando pra todo mundo que eu mais gostava. E minha cabeça borbulhando em como fazer surpresas para algumas destas pessoas tão amadas...
Rola uma divisão de opiniões sobre divulgar a gravidez assim tão rápido. Muitas mulheres esperam até o terceiro mês para contarem pelo alto risco do aborto natural neste primeiro trimestre. Respeito, mas a minha opinião de antes de engravidar se manteve na minha realidade: eu sou de compartilhar, minha vida é um livro aberto, eu acredito mais no bem, no pensamento positivo coletivo, não acredito em mal olhado, enfim sou otimista e não quis poupar a boa nova. Uma questão de opinião. E analisando se o pior acontecer, vou precisar tanto destas pessoas que amo, que não consigo me imaginar sofrendo em segredo. Sou expansiva demais pra isto. E assim os planos de ação começaram: mandei telegrama de aniversário para meu irmão, dizendo que ganharia um sobrinho ou sobrinha nova, mandei um bodyzinho escrito "NEW KID ON THE BLOCK" para o trabalho da minha irmã com um bilhete dizendo KEEP CALM and VOCÊ VAI SER TITIA, fui visitar o bebê de uma grande amiga com a patota reunida e na hora da foto comuniquei que estava grávida (quase causando um semi-infarto no pequeno Leozinho de 6 meses que estava no meu colo quando elas começaram a gritar como bichas loucas), marquei uma pizzada com a família em casa e apliquei o mesmo golpe da foto de todo mundo, visitei minha avó do coração (pois minhas avós de sangue já estão no céu há um tempão) e comuniquei que ela seria bisa e o que minha "segunda mãe" de coração seria avó. Por sorte minha comadre, mãe da minha afilhada Maria Clara com quem dividi toda minha infância estava num treinamento em São Paulo e pude dar a notícia pessoalmente. Foi uma festa! Uma farra! Sempre com cúmplices queridos a postos para filmar os momentos.
Mas é óbvio que tenho medo. Medo de que aconteça comigo o que já aconteceu com tantas amigas. E é estranho sentir medo pois normalmente não é o que sinto. Sou de pular de pára-quedas, do Canonying, do Rafting, do mudar de emprego, de função, de pegar Projeto grande, de dirigir de madrugada e na chuva. E me pegar assim, envolta de medo me causa estranheza. Um sentimento novo e que me dá a certeza da vulnerabilidade de nossa existência. Como Deus (ou como quer que chamemos) sempre está no comando e como o sucesso de algumas coisas não dependem de nossa boa vontade, de nossas atitudes, de nossas intenções ou simplesmente de nossos pensamentos positivos. Com certeza existe algo maior e mais longo que nossa existência pode compreender e este tipo de decisão não está puramente aqui.... E talvez hoje não enxerguemos, mas é justamente esta vulnerabilidade que faz de nossas vidas algo tão rico e tão único. Mas não vou negar que me vi com medo, por alguns momentos, pela incerteza que envolve o que acontecerá com meu filho. Trabalho com uma pessoa iluminada, que por anos estudou astrologia. E há um tempo está terminando meu mapa astral. A gente já teve discussões Homéricas sobre se ele deveria ou não me dizer sobre a previsão de minha morte, que é algo que normalmente ele não fala. Mas consegui convencê-lo de que é um direito meu. E oras, se por qualquer Força lhe é revelado, é ético que ele transmita esta informação pela Lei Número Um da Comunicação que é o direito de todos saberem das coisas. Pois acreditem, nunca temi saber nem mesmo quando mais ou menos eu morreria, mas pedi para que ele não fizesse nenhum tipo de revelação em relação ao bebê. Que eu preferia de fato não saber. É deste medo que estou falando... Nem parece eu. Mas enfim, como eu acredito que agente sintoniza como em frequências através de pensamentos, vamos voltar às festas e folias para que o bebê saiba o quanto é querido, amado e esperado. Sapequei um "Houston, we have a baby" no Facebook e se depender dos mais carinhosos comentários e das mais de 500 curtidas que sei que foram de coração, teremos um bebê muito amado no mundo! E que o melhor aconteça, Amém.
Olha um videozinho com os melhores momentos das surpresas da anunciação:
Semanas depois cheguei ao trabalho bocejando. Na décima quinta bocejada do dia fui surpreendida pela amiga que senta do meu lado questionando com seu sotaque pernambucano:
- Bichinha, tu tá assonada por demais. Fez alguma coisa na tua rotina que tá te tirando o sono?
Parei pra pensar. Sempre vivi na velocidade creu nível 5. Minha rotina era dormir uma, duas, três da manhã e acordar às seis e sobreviver. E isto incluia o incrível prêmio de nunca ter dormido numa reunião no trabalho atual. Nem pescar eu pescava. Lembrei que na noite anterior eu tinha dormido antes das dez. Foi o primero insight: "Será que tô grávida?"
E a resposta pra mim mesma imediata, no sistema de auto boicote: " Claro que não! Não pode ser! É apenas o segundo mês desde que começamos a tentar engravidar..."
Segui o dia no meu trabalho de sempre mas com bocejos nada comuns.
Aquele sono não fazia sentido.
Olhei no meu APP de controle da menstruação e estava de fato com quatro dias de atraso. Mas achei que era por ter parado há poucos meses de tomar anticoncepcional. Haveria de estar desregulado. Mas ficou ali a pulga atrás da orelha.
Não falei nada pro Leo pra não parecer ansiosa.
No caminho de volta pra casa, paramos no posto de gasolina para abastecer o carro. Decidi dar uma escapada até a farmácia e comprei um exame de farmácia. Aleguei que precisava de absorvente pro Leo.
Cinquenta pilas no exame. Não sei porque a gente sempre escolhe o mais caro. Porque não pode errar? Porque a gente quer guardar? O fato é que a gente sempre desiste pois ninguém merece cheiro de xixi na gaveta.
Sempre soube que testes de farmácia em geral podem dar falso negativo, mas falso positivo, quase impossível. Então se aparecesse uma bendita cruzinha no exame, era certeza: nosso bebê estaria a caminho.
Mas eis que, voltando pro carro, onde o Leo me esperava, fui apresentada para o mais novo brinquedo do meu marido. Não, não. Nada do filme 50 Tons de Cinza que pudesse esquentar nossa relação, brinquedos de adulto ou coisa assim. Era brinquedo mesmoo: um sabre de luz igualzinho do Star Wars.
Casei-me consciente. Leo entrou na Igreja com a Imperial March, música tema do Darth Vaider. E a história então continuava:
Wuóooon! Wuóoookn!
"Olha! Muda de cor!"
Olhei pro meu marido, olhei pro exame de farmácia e pensei:
"Deus Meu! Que medo! Será que estamos prontos pra sermos pais? Ou seremos 3 crianças dentro de uma casa? Medo! E esse lance de não ter nem água na cidade?!... Que eu fiz na minha vida?? E agora, meu Deus?!"
Da última vez que rezei mergulhando naquele mar lindo de São Sebastião, pedi um sinal. Não sabia se mandava currículo pela crise que está passando a empresa onde trabalho, ou se era chegada a hora de realizar o sonho da maternidade. Nesta mesma noite sonhei com um bebezinho menino, lindo, a cara do Leo. Como uma confirmação de que não havia mais o que adiar. Li uma frase linda, no mesmo dia, no Pinterest "A ansiedade existe porque você acha que precisa resolver tudo. Entrega pra Deus. Acredite: Ele tem um plano para você...
Lembrei disso tudo.
Dormi rezando pedindo mais sinais de que estaria no melhor caminho. Não tive coragem de fazer o teste de farmácia naquela noite. Nem tive coragem de mostrar que tinha comprado pro Leo.
" Vai ver só está atrasada... Talvez eu amanheça menstruada e então não preciso gastar este exame caro à toa."
Tratei de dormir. Estava com tanto sono que nem rolou cinco minutos de insônia tão pouco um Pai-Nosso completo.
No dia seguinte, o despertador às seis não me tirou da cama. Foi o Leo em súplicas. Pulei da cama e no meio da toalha de banho escondi o exame de farmácia. Você entra no banheiro cheia de dúvidas, medos e incertezas, faz xixi e sai com a maior certeza de sua vida: Estou grávida.
Um dos momentos mais marcantes ds minha vida! Engenheira que sou, li e reli o manual umas três vezes até conseguir me emocionar. Era verdade: estou grávida!
Sai do banheiro e falei pro Leo:
- Petit, fiz o exame e deu positivo: estou grávida!
- Não é! Deixa eu ver se você viu certo! (Confiança é tudo num relacionamento. Hahaha).
E olhou pela quarta e quinta vez a bendita bula do exame.
Olhamos um pro outro, beijamo-nos, abraçamo-nos e nos emocionamos... E enquanto eu chorava, no ombro do Leo, eu ouvia a chuva forte caindo lá fora, depois de meses de seca em São Paulo, como um afago de Deus dizendo "tudo terminará bem"...
Música do Dia: Bob Marley - Three Little Birds LIVE 1980 RARE