Quando falo “acho graça”, é uma
forma socializada de dizer que “não acho um pingo de graça”, ou mais
precisamente, que “fico puta” com certas coisas.
Numa bela tarde começamos uma
enquete aqui no escritório de qual será o sexo do bebê. Leo acha que vai ser
menina (na verdade ele quer que seja menina, rs) e eu já acho que será menino,
visto que sonhei. Enfim, quase todos os meninos que trabalham comigo acham que
é menino e quase todas as meninas acham que é menina. Eu não apostaria um real:
eu nunca acerto! Não vou fazer o exame de seis semanas e trezentos reais para
saber desde agora o sexo do bebê. Nada contra quem o faça mas somos curiosos na
média, mamãe e papai. Já tínhamos os nomes meio na cabeça desde a época que
ainda namorávamos e foram inspirados em músicas que amamos. Se for menino, vai
se chamar Gabriel. Por causa da música OITO ANOS que conhecemos na voz de
Adriana Calcanhoto mas que na verdade foi composta por Paula Toller para seu
filho. É uma graça pois fala de várias perguntas que as crianças fazem aos seus
pais e é algo que realmente nos encanta, pensar neste momento em que talvez
usemos o que aprendemos assinando anos e anos da Revista Superinteressante (e
graças a Deus eles chegarão pós Google, nossa vida será mais fácil). Se for
menina, vai se chamar Dandara, inspirados pela música do Ivan Lins (também
interpretada por Simone) que descreve uma moça que ama a liberdade. Talvez
justamente porque nosso maior anseio como pais é de criar um ser humano livre.
Dandara é um nome africano, nosso povo e viagem preferidos, e é o nome de uma
heroína, esposa do Zumbi dos Palmares, importante figura na história da
Humanidade. Descobrir tudo isto nos fez gostar ainda mais do nome. Minha mãe e
minha sogra não gostam.
“- Prefiro Sofia”, reivindicou
minha sogra. E eu sorri. A gente abortou nomes que a gente planejava com outros
namorados e namoradas. No way.
Minha mãe também não gostou. No
dia seguinte, falou logo cedo:
“- Pensei melhor e acho que
depois eu me acostumo com Dandara. Está sendo como quando escolheram
Valentina”.
Eu falei pra vovó:
“- Não se preocupa que você vai
amar mesmo que se chame Erinalda.” E ri.
A gente não liga se não é todo
mundo que gosta. Porque a gente gosta MESMO e está tão longe de ser diferente,
pois estes nomes estavam tão fortes e presentes em nossos sonhos, que não
poderiam ser outros. Não foi mesmo uma questão de pressa.
Dandara parece verbo. ‘ Dandar,
pra ganhar papá!’ Pensei comigo. Eu dandei, Tu dandara, Ele dandara. Futuro do Pretérito. Vou começar a explicar assim. Hahahaha!
E pensei também em algum Gabriel mais pop que eu goste, foi quando veio logo Gabriel, o
Pensador, porque do Anjo Gabriel não manjo muito. Pra simplificar o discurso.
Mas voltando a enquete, é
impressionante como tem coisa que “eu acho graça”. Era enquete pra saber o SEXO
do meu filho e não a OPÇÃO SEXUAL do meu filho. Acabei foi super irritada.
Em meio às pessoas opinando, teve
mais de duas ou três pessoas, extremamente preconceituosas, que sapecaram um
comentário desses que eu “acho graça”:
“- Não importa o sexo. O que
importa é que o sexo se mantenha até o fim da vida. Se for menino, que continue
menino.”
Oi? Uma grande amiga já tinha
alertado ao comentário padrão mas achei que demoraria um pouco mais para ouvir
tamanha barbaridade.
“- Estamos perguntando o SEXO.
Filho meu vai poder escolher ser gay mas nunca faria enquete desta parte.”
“- Não, Ana. Vai ser menino
homem. Vira pra lá essa boca sobre gay.”
Viro nada. Minha boca vai ficar
aqui. Que ridículo as pessoas falarem disto como se fosse uma maldição!
“- Meu filho ou filha poderá ser
gay em paz, se depender de nós.”
“- Não. Será homem, bonito, de
barba e te dará um neto.”
“- Ele pode ser tudo isso e mais
gay.”
“- Você não sabe o absurdo que
está falando.”
Desisti. Porque se eu acho “tanta
graça” em gente intolerante e preconceituosa, não posso ser um espelho desse
tipo de gente e ser intolerante com seu preconceito. Entendi que cada um dá o
que de melhor pode oferecer. E, às vezes, isto é tudo. Senti compaixão. E não
discuti mais não. Mas eis que um mamífero faz seu comentário e você percebe que
o céu é o limite:
“- Talvez seja hermafrodita.”
Grávida ouve cada merda. Vocês
não têm noção...
Músicas do Dia: Oito Anos (Adriana Calcanhotto)
Por que você é Flamengo e meu pai Botafogo?
O que significa “Impávido Colosso”?
Por que os ossos doem enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?
Por que os dedos murcham quando estou no banho?
Por que as ruas enchem quando está chovendo?
Quanto é mil trilhões vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?
Well, well, well
Gabriel…
Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a Terra roda?
Por que deitar agora?
Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?
Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?
Do qué é feita a nuvem?
Do qué é feita a neve?
Como é que se escreve réveillon?
Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela
Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim, tão transparente
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara
Ela faz mechas claras no cabelo
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso
Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo, admirado
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar
Dandara
Dandara...

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