sexta-feira, 21 de novembro de 2014

É melhor ser grávida que ser surda


Quando falo “acho graça”, é uma forma socializada de dizer que “não acho um pingo de graça”, ou mais precisamente, que “fico puta” com certas coisas.

Numa bela tarde começamos uma enquete aqui no escritório de qual será o sexo do bebê. Leo acha que vai ser menina (na verdade ele quer que seja menina, rs) e eu já acho que será menino, visto que sonhei. Enfim, quase todos os meninos que trabalham comigo acham que é menino e quase todas as meninas acham que é menina. Eu não apostaria um real: eu nunca acerto! Não vou fazer o exame de seis semanas e trezentos reais para saber desde agora o sexo do bebê. Nada contra quem o faça mas somos curiosos na média, mamãe e papai. Já tínhamos os nomes meio na cabeça desde a época que ainda namorávamos e foram inspirados em músicas que amamos. Se for menino, vai se chamar Gabriel. Por causa da música OITO ANOS que conhecemos na voz de Adriana Calcanhoto mas que na verdade foi composta por Paula Toller para seu filho. É uma graça pois fala de várias perguntas que as crianças fazem aos seus pais e é algo que realmente nos encanta, pensar neste momento em que talvez usemos o que aprendemos assinando anos e anos da Revista Superinteressante (e graças a Deus eles chegarão pós Google, nossa vida será mais fácil). Se for menina, vai se chamar Dandara, inspirados pela música do Ivan Lins (também interpretada por Simone) que descreve uma moça que ama a liberdade. Talvez justamente porque nosso maior anseio como pais é de criar um ser humano livre. Dandara é um nome africano, nosso povo e viagem preferidos, e é o nome de uma heroína, esposa do Zumbi dos Palmares, importante figura na história da Humanidade. Descobrir tudo isto nos fez gostar ainda mais do nome. Minha mãe e minha sogra não gostam.

“- Prefiro Sofia”, reivindicou minha sogra. E eu sorri. A gente abortou nomes que a gente planejava com outros namorados e namoradas. No way.

Minha mãe também não gostou. No dia seguinte, falou logo cedo:

“- Pensei melhor e acho que depois eu me acostumo com Dandara. Está sendo como quando escolheram Valentina”.

Eu falei pra vovó:

“- Não se preocupa que você vai amar mesmo que se chame Erinalda.” E ri.

A gente não liga se não é todo mundo que gosta. Porque a gente gosta MESMO e está tão longe de ser diferente, pois estes nomes estavam tão fortes e presentes em nossos sonhos, que não poderiam ser outros. Não foi mesmo uma questão de pressa.

Dandara parece verbo. ‘ Dandar, pra ganhar papá!’ Pensei comigo. Eu dandei, Tu dandara, Ele dandara. Futuro do Pretérito. Vou começar a explicar assim. Hahahaha! E pensei também em algum Gabriel mais pop que eu goste, foi quando veio logo Gabriel, o Pensador, porque do Anjo Gabriel não manjo muito. Pra simplificar o discurso.  

Mas voltando a enquete, é impressionante como tem coisa que “eu acho graça”. Era enquete pra saber o SEXO do meu filho e não a OPÇÃO SEXUAL do meu filho. Acabei foi super irritada.

Em meio às pessoas opinando, teve mais de duas ou três pessoas, extremamente preconceituosas, que sapecaram um comentário desses que eu “acho graça”:

“- Não importa o sexo. O que importa é que o sexo se mantenha até o fim da vida. Se for menino, que continue menino.”

Oi? Uma grande amiga já tinha alertado ao comentário padrão mas achei que demoraria um pouco mais para ouvir tamanha barbaridade.

“- Estamos perguntando o SEXO. Filho meu vai poder escolher ser gay mas nunca faria enquete desta parte.”

“- Não, Ana. Vai ser menino homem. Vira pra lá essa boca sobre gay.”

Viro nada. Minha boca vai ficar aqui. Que ridículo as pessoas falarem disto como se fosse uma maldição!

“- Meu filho ou filha poderá ser gay em paz, se depender de nós.”

“- Não. Será homem, bonito, de barba e te dará um neto.”

“- Ele pode ser tudo isso e mais gay.”

“- Você não sabe o absurdo que está falando.”

Desisti. Porque se eu acho “tanta graça” em gente intolerante e preconceituosa, não posso ser um espelho desse tipo de gente e ser intolerante com seu preconceito. Entendi que cada um dá o que de melhor pode oferecer. E, às vezes, isto é tudo. Senti compaixão. E não discuti mais não. Mas eis que um mamífero faz seu comentário e você percebe que o céu é o limite:

 “- Talvez seja hermafrodita.”

Grávida ouve cada merda. Vocês não têm noção...
Músicas do Dia:

Oito Anos (Adriana Calcanhotto)

Por que você é Flamengo e meu pai Botafogo?
O que significa “Impávido Colosso”?
Por que os ossos doem enquanto a gente dorme?
Por que os dentes caem?
Por onde os filhos saem?

Por que os dedos murcham quando estou no banho?
Por que as ruas enchem quando está chovendo?
Quanto é mil trilhões vezes infinito?
Quem é Jesus Cristo?
Onde estão meus primos?

Well, well, well
Gabriel…

Por que o fogo queima?
Por que a lua é branca?
Por que a Terra roda?
Por que deitar agora?
Por que as cobras matam?
Por que o vidro embaça?
Por que você se pinta?
Por que o tempo passa?

Por que que a gente espirra?
Por que as unhas crescem?
Por que o sangue corre?
Por que que a gente morre?
Do qué é feita a nuvem?
Do qué é feita a neve?
Como é que se escreve réveillon?


Dandara  (Ivan Lins)
Ela tem nome de mulher guerreira
E se veste de um jeito que só ela
Ela vive entre o aqui e o alheio
As meninas não gostam muito dela

Ela tem um tribal no tornozelo
E na nuca adormece uma serpente
O que faz ela ser quase um segredo
É ser ela assim, tão transparente
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar

Dandara
Ela faz mechas claras no cabelo
E caminha na areia pelo raso
Eu procuro saber os seus roteiros
Pra fingir que a encontro por acaso

Ela fala num celular vermelho
Com amigos e com seu namorado
Ela tem perto dela o mundo inteiro
E à volta outro mundo, admirado
Ela é livre e ser livre a faz brilhar
Ela é filha da terra,céu e mar

Dandara
Dandara...


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