sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cinco nem sempre é dez

Entrei uma pessoa sistemática e perfeccionista na faculdade de Engenharia e sai um tanto mais simples e menos exigente de mim mesma de lá. Era questão de sobrevivência: querer tirar sempre dez era loucura e eu não suportaria tantas decepções ao longo de seis longos e duros anos (como um japonês da FEI que na época não suportou e se suicidou. Pensei comigo: o limiar da loucura, todos temos. Melhor que eu não me teste). Estabeleci minha nova filosofia de vida pra época que era "darei sempre meu melhor e aceitarei com humildade os resultados, sejam quais forem, pois terei a consciência tranquila de ter feito tudo que podia." E aprendi que cinco é dez. Não precisa ser perfeito. Precisa ser o exigido. 
Ontem vi que o "cinco é dez" não se aplica para qualquer área da vida da gente. Fiz meu melhor desde que descobri o descolamento. Nem as escadas da minha própria casa eu desci graças à ajuda impagável de meu marido e de minha mãe, que me suportaram por sete dias com tanto amor. Sempre fui xiita. Se é importante repousar, vamos repousar. Por uma semana só levantei para ir ao banheiro e tomar banho. Malemá, no último dia, montei a árvore de Natal para sair de um estágio quase depressivo. Minha mãe é sensível e maravilhosa e trouxe alegria ao meu dia. 
Ontem fiz novo ultrassom. E como tudo na vida, teve as boas e más notícias.
A boa: bebê está crescendo perfeitamente (ouvimos de novo seu coração e desta vez teve até a vovó materna na platéia). O descolamento também diminuiu muito! Mais que a metade: era de um centímetro e passou a ser de 0,48 cm depois de uma semana de repouso absoluto e medicação certa. 
Fiquei eufórica! Mais uma semaninha e estarei zero bala. Hashtag Rumo ao Descolamento Zero! Até passei o Status Report ao meu Gestor dizendo que na semana seguinte estaria de volta. 
A noite veio a parte da má notícia: meu médico viu os exames e disse que qualquer descolamento deste tamanho ainda é um risco de aborto e não considera o risco mitigado. Nada deve mudar em minha rotina na próxima uma semana. Até dia 18 de Dezembro, devo permanecer usando a medicação. Repouso por mais uma semana. Quer novo ultrassom em uma semana quando o visitarei pois é o dia da consulta de pré Natal já agendada.
Achei que teria vida mais normal a partir de terça. Mas seguirei por aqui, em casa. 
Chorei. Confesso não aguentar mais esta rotina que parece de doente. Sei de tudo que meus amigos e familiares diriam numa hora destas: pelo menos você não tem dor, é para o bem do bebê que é tudo que importa agora, tenha paciência, pelo menos você tem um marido maravilhoso que te ajuda em tudo, assista filmes, leia, ainda bem que existe Candy Crush e para ter vidas infinitas basta manipular o relógio do iPad, trabalhe remoto que distrai, enfim, eu sei todos os pontos pelos quais estou realmente grata. Mas confesso estar cansada. Confiante, mas cansada. 
E uma coisa que acho que já mudou dentro de mim para sempre é a pressa com que eu levava a vida. Eu dizia que minha rotina era sempre créu nível cinco. Eu fazia sempre mil coisas ao mesmo tempo. Achava bárbaro fazer logo todo meu To Do List para que novas coisas viessem e assim eu me sentisse útil na Humanidade. E isso era em tudo! No trabalho, no voluntariado, na família, em casa... Agora me pego assim: se quero ser realmente útil para meu filho ou filha, tudo que tenho que fazer é nada. Como um grande sinal da vida dizendo: "Calma, tudo está em calma... Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure... Deixe que a alma tenha a mesma idade que a idade do céu...."
Sinto isto na pele, cravado. Cada vez que ao levantar para fazer xixi lembro da voz do meu médico e dos queridos dizendo: "faça as coisas com calma. Ande devagar. Mude o passo devagar." Sem dúvidas a maior mudança, a maior quebra de paradigmas de minha vida. Pra quem já gastou tantas sessões de terapia dizendo que temia ser tão tão tão acelerada, pra quem já ouviu da terapeuta "não espere ter um AVC para cuidar mais de você", sinto que esta gestação já trouxe mudanças intrínsicas em minha vida. Achei que nunca cantaria esta música para falar de mim, mas acho que chegou o grande dia, 33 anos depois: "Ando devagar porque já tive pressa..."
Até dia 18/12/14 tem chão! Ou melhor, quase sem nem pisar no chão.... 



Música do dia: A Idade do Céu (Zélia Duncan)

Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...

Não somos o
Que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu...

Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure

Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu...

Ranhan! Anhan! Hum! Hum!
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Um capricho do sol
No jardim do céu...

Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu...

Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu...

Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah!

Calma!
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu...

A mesma idade
Que a idade do céu
Calma!

 
 

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