Semana 37. Um ultrassom por
semana e uma consulta toda semana. O fim desta longa espera, que pasmem, mas
dura quase um ano, não pas-sa! Sensação de quando você passa horas e horas na
fila pra ir na montanha russa que tem medo e vontade louca ao mesmo tempo. E
fica tantas horas lá esperando, que sente de tudo um pouco: sente vontade de
que a fila ande mais depressa porque não vê a hora, depois sente vontade de que
a fila continua lenta pra nunca chegar sua vez, rola um bipolarismo. Exatamente
assim que tenho me sentido em relação ao grande dia: o dia do parto, o dia que
nosso filho amado virá ao mundo.
Sentirei saudade da barriga, de
prioridade nas filas, da gentileza de estranhos, de sempre arrancar um sorriso
e uma pergunta se é menino ou menina nos elevadores, de sentir o soluço do
Gabriel e pensar que é bem estar fetal, que ele está bem dentro de mim.
Sentirei saudade de dormir até às onze nos domingos, não vou mentir. E sei que
sentirei coisas que hoje nem posso imaginar e que será mágico receber o Gabriel
em nossas vidas pra juntos sermos felizes.
Falemos de umbigo. Agora é
oficial: parece que vai explodir. Ainda não ficou igual ao umbigo do meu pai
que é esbutucado pra fora, mas está muito raso! Maior agonia do mundo!!! Tenho
uma amiga africana no trabalho que sempre vem fazer carinho na minha barriga e
dizer bom dia pro Gabriel, a Alice. Eu adoro! Ela é uma querida. Mas o carinho
dela é forte e dá o maior medo quando ela passa a mão no umbigo. Agora ela
chega, eu tampo o umbigo. Kkk. E deixo ela acariciar todo o resto (que não é
pouco! Minha barriga está e-nor-me!). Passei creme anti-estrias, óleo, todos os
dias. Mas não teve jeito. Neste final apareceram estrias. E são feias. Não são
brancas, são vermelhas. Apareceram embaixo da minha barriga, onde pesa, quase
onde vai ficar a cicatriz da cesárea. Eu não as vejo, só pelo espelho. Fazer o
que? Marcas desta fase. Juro que não me aflige muito neste momento. Talvez
depois. Mas agora o foco é outro. O umbigo dá medo. Medo de explodir. Todo
mundo tem umbigo porque foi por ele que se nutriu quando era um bebê dentro da
barriga da mãe. E eu jurava que era tipo um nó de bexiga que o médico dava
quando nascia e por isso tinha esse formato de nozinho lá pra dentro. Sabiam
que não é? É uma cicatriz! Não tem nó!!! Depois que eu descobri isso só senti
mais medo ainda que ele exploda. Deus santo! Não tem nó.... Eu jurava que
tinha. Rs. E o umbigo do nenê pode demorar até uns dez dias pra cair. Ui! Que gastura
de umbigo! Um dia você está lá, vivendo sua vida, fazendo seus projetos, indo
nos churrascos... 80% de sua vida é diversão. De repente você está de nove
meses e 80% dos seus medos é sobre umbigos. Hahaha! A vida é fanfarrona! Vou
sobreviver.
Estamos na reta final. A cesárea está
agendada. Quarto reservado na Maternidade São Luiz do Itaim. Será no dia 29 de
Junho de 2015 às 19 horas. Dá pra acreditar que “tá chegando muito”? A menos
que o Gabriel queira sair antes, será neste dia conforme planejado. Não acho
que sairá antes. Temos conversado. Já pedi desculpas por tirá-lo na semana 39
(pra ele não ficar chateado de vir uma semana antes) mas ele realmente está
pronto: ultrassom desta semana mostrou de novo 3,5 kg e 50 cm. Nosso pequeno
grande homem!
Estou, estranhamente, sentindo
uma paz invadindo meu coração. Deve ser algum hormônio essa coisa. Não estou
com medo sobre como vou cuidar dele nem se vou fazer tudo certo. Sensação de
aceitação. Aceitar que serei a melhor mãe que poderei ser e que isto estará
longe de ser o perfeito. Mas ok. Como por toda a minha vida acadêmica pensei,
era meu lema: sempre darei o melhor de mim. Vou me esforçar e caprichar. Se
ainda assim eu for pra prova e não for bem, não tem porque sofrer. Fiz meu
melhor. Não tem porque olhar pro lado, comparar com o resultado do amigo, fiz
meu melhor. E sempre deu certo. Eu AMAVA estudar. Por toda minha vida foi uma
diversão, uma delícia me dedicar, uma delícia me esforçar e chegar aos meus
limites para dar o meu melhor. Eu sempre amei. Desde o Pré até o MBA. E tirei
muitas notas dez e tirei algumas notas zero e meio também. Agora, como mãe, vai
ser igual. Sei como funciono: sempre me dou de corpo e alma para o que me
proponho a fazer, busco, verdadeiramente, meu melhor. E assim será. E saberei
me perdoar nos momentos de fracasso. E pedirei ajuda nos momentos difíceis. E
vibrarei nos momentos felizes. Vai ser uma jornada incrível!
Espiritualmente me preparo para
não ser “dona” da estória de meu filho. Pra eu ser meio de sua felicidade.
Cumprindo minha responsabilidade de mãe, de educar, de ensinar, de nutrir, de
cuidar, de fazer feliz mas sempre, sempre lembrando que não está no meu
controle, que o Gabriel não veio para atender expectativas, para ser o que eu
não pude ser, para fazer o que não pude fazer, para que eu não projete nele,
desrespeitosamente uma história que é minha, baseada em meus preconceitos e em
minhas vontades. Não. O Gabriel terá seus gostos, sua história, suas
conquistas, seus princípios, sua alma, e tudo isto será respeitado. É esta
minha missão como mãe.
Escrevi a ele minha cartinha para
colocar na cápsula do tempo, pra ele abrir quando fizer dezesseis anos. De
forma bem resumida escrevi como espero que ele esteja quando abrir: só me
importa que ele seja um ser humano bom, que respeita a si e ao próximo e que
ele será feliz, à sua maneira. É disto que estou falando.
Não sei se poderemos, eu e o Leo,
dar ao Gabriel tudo que imaginamos poder dar, do ponto de vista material. Mas
nossa luta sempre será dar a ele bons exemplos, princípios e ensinamentos para que
ele seja estas duas coisas: uma boa pessoa e uma pessoa feliz. Fala-se muito de
um mundo melhor para nossos filhos... Eu estou falando de filhos melhores para
o nosso mundo.
Que o amor sempre vença. E dê
forças. Que não tenhamos preguiça de sermos bons pais. Que não terceirizemos a
educação do Gabriel para nenhuma parte. Que nos doemos de corpo e alma. Que
saibamos identificar pequenas coisas que serão muito importantes. Que Deus nos
dê sabedoria, saúde e amor.
Fiquei pensando na minha infância.
Em todas as boas lembranças que tenho da minha infância. Não são poucas...
Passamos, Regina e eu, um almoço inteiro compartilhando de lembranças de coisas
extremamente simples e que nos marcaram pra sempre... Não tinha ido à Disney
quando criança. Quero poder levar meu filho. Pois conheci depois de grande e é
mágico! Nada contra a Disney. Mas o que estou querendo dizer é que minha
infância foi marcada por inúmeros doces momentos de coisas extremamente simples
e que eu lembro com muita saudade e amor. E me faz sentir amada. E me faz ser
feliz. Lembro da minha primeira vez andando de bicicleta, das moedas pra
comprar meu gelinho de coco queimado preferido, dos domingos com meu pai na
feira, da cestinha com copinhos e pratinhos de plástico que o Papai Noel mandou
entregar numa noite de Natal na casa dos meus tios, da primeira noite que não
dormi mais no berço no quarto da minha mãe e dormi na cama no quarto com meus
irmãos (eu queria muito dormir com a minha irmã e segurava o cabelo dela!), meu
primeiro dia de escola, minha mãe me dando vasinhos para eu brincar de plantar
na casa da minha avó que não tinha televisão, do meu pai me colocando no ombro
pra ver a parada da Criança na 23 de Maio e depois me levando pra comer misto
quente, da minha mãe dando banho em mim e na minha prima e depois emprestando
caixa de lápis de cor da minha irmã pra gente pintar na mesa da cozinha
enquanto ela terminava a janta, da minha mãe colocando a janta no meu prato e
fazendo de conta que era pizza, dividindo em “pedaços” pra eu comer tudo, da
minha irmã me dando só a parte branquinha do peixe frito porque eu não gostava
da “casquinha” (ela tirava a parte branca, assoprava e punha na minha boca), de
quando eu me vesti de colher de pau pra dançar no dia das mães, das viagens ao
Paraná que minha mãe improvisava no ônibus uma caminha que eu podia deitar no
pé dela e do meu pai (imagina que eles não podiam nem se mexer!), eu lembro de
tanta coisa... tantas pequenas coisas... do meu pai brincando de escolinha
comigo, copiando lição da lousa e rindo porque eu era professora brava e punha
ele de castigo... da minha mãe me desfraldando, me chamando no meio da noite
pra ir fazer xixi no banheiro pra não fazer na cama, do meu primeiro dia de
aula, das missas... eu lembro de tudo... como se fosse agora e sinto uma
gratidão inarrável.
E tudo que mais quero é encher o
Gabriel de boas lembranças. A partir do dia 29 deste mês, seremos nós, papai e
mamãe, lógico que todos à nossa volta também, mas sobretudo nós, que seremos
responsáveis em plantar no coração do Gabriel cada doce lembrança. De cuidado.
De amor. De demonstração de afeto, Abraços. Beijos. Broncas. Ensinamentos. Cada
pedacinho que vai compor uma nova pessoa, é em grande parte, nossa
responsabilidade.
Esta formação da pessoa está
além, muito além de coisas como o que ele poderá comer ou não, que remédios vai
tomar ou não, se vai usar tablet ou não. É mais importante que tudo deste
mundo! Estaremos aqui pra ajudar um ser humano, em sua existência, a cumprir
sua missão de vida e ser feliz. E este é o maior desafio. E a parte mais mágica
que pode haver!
Estou encantada com a idéia de
ser mãe! Mal posso esperar...
MÚSICA DO DIA: A Paz (Gilberto Gil)
Por estar simplesmente anestesiada de amor....
A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
A paz fez um mar da revolução
Invadir meu destino; A paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"

Sim, você vai sentir saudades da gravidez, mas todos os sorrisos continuará recebendo. Quando ele for bebezinho as pessoas ficarão derretidas, algumas como eu, ficarão melancólicas e dirão quanta saudade tem dos filhos bebezinhos. Quando maiorzinhos, arrancarão sorrisos por serem sapecas e inocentes. Você vai errar, mas vai acertar muito mais. E, sim, vai querer criar lindas lembranças para ele, mimá-lo e educá-lo para que seja uma boa pessoa e torcer para que tenha muitos amigos e seja muito feliz. Você entendeu tudo, Ana!
ResponderExcluirO Lucas também nasceu no S. Luiz - Itaim. Excelente! Um beijo!