sexta-feira, 19 de junho de 2015

Que sejas bom e feliz!


Semana 37. Um ultrassom por semana e uma consulta toda semana. O fim desta longa espera, que pasmem, mas dura quase um ano, não pas-sa! Sensação de quando você passa horas e horas na fila pra ir na montanha russa que tem medo e vontade louca ao mesmo tempo. E fica tantas horas lá esperando, que sente de tudo um pouco: sente vontade de que a fila ande mais depressa porque não vê a hora, depois sente vontade de que a fila continua lenta pra nunca chegar sua vez, rola um bipolarismo. Exatamente assim que tenho me sentido em relação ao grande dia: o dia do parto, o dia que nosso filho amado virá ao mundo.

Sentirei saudade da barriga, de prioridade nas filas, da gentileza de estranhos, de sempre arrancar um sorriso e uma pergunta se é menino ou menina nos elevadores, de sentir o soluço do Gabriel e pensar que é bem estar fetal, que ele está bem dentro de mim. Sentirei saudade de dormir até às onze nos domingos, não vou mentir. E sei que sentirei coisas que hoje nem posso imaginar e que será mágico receber o Gabriel em nossas vidas pra juntos sermos felizes.

Falemos de umbigo. Agora é oficial: parece que vai explodir. Ainda não ficou igual ao umbigo do meu pai que é esbutucado pra fora, mas está muito raso! Maior agonia do mundo!!! Tenho uma amiga africana no trabalho que sempre vem fazer carinho na minha barriga e dizer bom dia pro Gabriel, a Alice. Eu adoro! Ela é uma querida. Mas o carinho dela é forte e dá o maior medo quando ela passa a mão no umbigo. Agora ela chega, eu tampo o umbigo. Kkk. E deixo ela acariciar todo o resto (que não é pouco! Minha barriga está e-nor-me!). Passei creme anti-estrias, óleo, todos os dias. Mas não teve jeito. Neste final apareceram estrias. E são feias. Não são brancas, são vermelhas. Apareceram embaixo da minha barriga, onde pesa, quase onde vai ficar a cicatriz da cesárea. Eu não as vejo, só pelo espelho. Fazer o que? Marcas desta fase. Juro que não me aflige muito neste momento. Talvez depois. Mas agora o foco é outro. O umbigo dá medo. Medo de explodir. Todo mundo tem umbigo porque foi por ele que se nutriu quando era um bebê dentro da barriga da mãe. E eu jurava que era tipo um nó de bexiga que o médico dava quando nascia e por isso tinha esse formato de nozinho lá pra dentro. Sabiam que não é? É uma cicatriz! Não tem nó!!! Depois que eu descobri isso só senti mais medo ainda que ele exploda. Deus santo! Não tem nó.... Eu jurava que tinha. Rs. E o umbigo do nenê pode demorar até uns dez dias pra cair. Ui! Que gastura de umbigo! Um dia você está lá, vivendo sua vida, fazendo seus projetos, indo nos churrascos... 80% de sua vida é diversão. De repente você está de nove meses e 80% dos seus medos é sobre umbigos. Hahaha! A vida é fanfarrona! Vou sobreviver.

Estamos na reta final. A cesárea está agendada. Quarto reservado na Maternidade São Luiz do Itaim. Será no dia 29 de Junho de 2015 às 19 horas. Dá pra acreditar que “tá chegando muito”? A menos que o Gabriel queira sair antes, será neste dia conforme planejado. Não acho que sairá antes. Temos conversado. Já pedi desculpas por tirá-lo na semana 39 (pra ele não ficar chateado de vir uma semana antes) mas ele realmente está pronto: ultrassom desta semana mostrou de novo 3,5 kg e 50 cm. Nosso pequeno grande homem!

Estou, estranhamente, sentindo uma paz invadindo meu coração. Deve ser algum hormônio essa coisa. Não estou com medo sobre como vou cuidar dele nem se vou fazer tudo certo. Sensação de aceitação. Aceitar que serei a melhor mãe que poderei ser e que isto estará longe de ser o perfeito. Mas ok. Como por toda a minha vida acadêmica pensei, era meu lema: sempre darei o melhor de mim. Vou me esforçar e caprichar. Se ainda assim eu for pra prova e não for bem, não tem porque sofrer. Fiz meu melhor. Não tem porque olhar pro lado, comparar com o resultado do amigo, fiz meu melhor. E sempre deu certo. Eu AMAVA estudar. Por toda minha vida foi uma diversão, uma delícia me dedicar, uma delícia me esforçar e chegar aos meus limites para dar o meu melhor. Eu sempre amei. Desde o Pré até o MBA. E tirei muitas notas dez e tirei algumas notas zero e meio também. Agora, como mãe, vai ser igual. Sei como funciono: sempre me dou de corpo e alma para o que me proponho a fazer, busco, verdadeiramente, meu melhor. E assim será. E saberei me perdoar nos momentos de fracasso. E pedirei ajuda nos momentos difíceis. E vibrarei nos momentos felizes. Vai ser uma jornada incrível!

Espiritualmente me preparo para não ser “dona” da estória de meu filho. Pra eu ser meio de sua felicidade. Cumprindo minha responsabilidade de mãe, de educar, de ensinar, de nutrir, de cuidar, de fazer feliz mas sempre, sempre lembrando que não está no meu controle, que o Gabriel não veio para atender expectativas, para ser o que eu não pude ser, para fazer o que não pude fazer, para que eu não projete nele, desrespeitosamente uma história que é minha, baseada em meus preconceitos e em minhas vontades. Não. O Gabriel terá seus gostos, sua história, suas conquistas, seus princípios, sua alma, e tudo isto será respeitado. É esta minha missão como mãe.

Escrevi a ele minha cartinha para colocar na cápsula do tempo, pra ele abrir quando fizer dezesseis anos. De forma bem resumida escrevi como espero que ele esteja quando abrir: só me importa que ele seja um ser humano bom, que respeita a si e ao próximo e que ele será feliz, à sua maneira. É disto que estou falando.

Não sei se poderemos, eu e o Leo, dar ao Gabriel tudo que imaginamos poder dar, do ponto de vista material. Mas nossa luta sempre será dar a ele bons exemplos, princípios e ensinamentos para que ele seja estas duas coisas: uma boa pessoa e uma pessoa feliz. Fala-se muito de um mundo melhor para nossos filhos... Eu estou falando de filhos melhores para o nosso mundo.

Que o amor sempre vença. E dê forças. Que não tenhamos preguiça de sermos bons pais. Que não terceirizemos a educação do Gabriel para nenhuma parte. Que nos doemos de corpo e alma. Que saibamos identificar pequenas coisas que serão muito importantes. Que Deus nos dê sabedoria, saúde e amor.

Fiquei pensando na minha infância. Em todas as boas lembranças que tenho da minha infância. Não são poucas... Passamos, Regina e eu, um almoço inteiro compartilhando de lembranças de coisas extremamente simples e que nos marcaram pra sempre... Não tinha ido à Disney quando criança. Quero poder levar meu filho. Pois conheci depois de grande e é mágico! Nada contra a Disney. Mas o que estou querendo dizer é que minha infância foi marcada por inúmeros doces momentos de coisas extremamente simples e que eu lembro com muita saudade e amor. E me faz sentir amada. E me faz ser feliz. Lembro da minha primeira vez andando de bicicleta, das moedas pra comprar meu gelinho de coco queimado preferido, dos domingos com meu pai na feira, da cestinha com copinhos e pratinhos de plástico que o Papai Noel mandou entregar numa noite de Natal na casa dos meus tios, da primeira noite que não dormi mais no berço no quarto da minha mãe e dormi na cama no quarto com meus irmãos (eu queria muito dormir com a minha irmã e segurava o cabelo dela!), meu primeiro dia de escola, minha mãe me dando vasinhos para eu brincar de plantar na casa da minha avó que não tinha televisão, do meu pai me colocando no ombro pra ver a parada da Criança na 23 de Maio e depois me levando pra comer misto quente, da minha mãe dando banho em mim e na minha prima e depois emprestando caixa de lápis de cor da minha irmã pra gente pintar na mesa da cozinha enquanto ela terminava a janta, da minha mãe colocando a janta no meu prato e fazendo de conta que era pizza, dividindo em “pedaços” pra eu comer tudo, da minha irmã me dando só a parte branquinha do peixe frito porque eu não gostava da “casquinha” (ela tirava a parte branca, assoprava e punha na minha boca), de quando eu me vesti de colher de pau pra dançar no dia das mães, das viagens ao Paraná que minha mãe improvisava no ônibus uma caminha que eu podia deitar no pé dela e do meu pai (imagina que eles não podiam nem se mexer!), eu lembro de tanta coisa... tantas pequenas coisas... do meu pai brincando de escolinha comigo, copiando lição da lousa e rindo porque eu era professora brava e punha ele de castigo... da minha mãe me desfraldando, me chamando no meio da noite pra ir fazer xixi no banheiro pra não fazer na cama, do meu primeiro dia de aula, das missas... eu lembro de tudo... como se fosse agora e sinto uma gratidão inarrável.

E tudo que mais quero é encher o Gabriel de boas lembranças. A partir do dia 29 deste mês, seremos nós, papai e mamãe, lógico que todos à nossa volta também, mas sobretudo nós, que seremos responsáveis em plantar no coração do Gabriel cada doce lembrança. De cuidado. De amor. De demonstração de afeto, Abraços. Beijos. Broncas. Ensinamentos. Cada pedacinho que vai compor uma nova pessoa, é em grande parte, nossa responsabilidade.

Esta formação da pessoa está além, muito além de coisas como o que ele poderá comer ou não, que remédios vai tomar ou não, se vai usar tablet ou não. É mais importante que tudo deste mundo! Estaremos aqui pra ajudar um ser humano, em sua existência, a cumprir sua missão de vida e ser feliz. E este é o maior desafio. E a parte mais mágica que pode haver!

Estou encantada com a idéia de ser mãe! Mal posso esperar...

 

MÚSICA DO DIA: A Paz (Gilberto Gil)

Por estar simplesmente anestesiada de amor....

 

A paz invadiu o meu coração

De repente, me encheu de paz

Como se o vento de um tufão

Arrancasse meus pés do chão

Onde eu já não me enterro mais

 

A paz fez um mar da revolução

Invadir meu destino; A paz

Como aquela grande explosão

Uma bomba sobre o Japão

Fez nascer o Japão da paz

 

Eu pensei em mim

Eu pensei em ti

Eu chorei por nós

Que contradição

Só a guerra faz

Nosso amor em paz

 

Eu vim

Vim parar na beira do cais

Onde a estrada chegou ao fim

Onde o fim da tarde é lilás

Onde o mar arrebenta em mim

O lamento de tantos "ais"

 

Um comentário:

  1. Sim, você vai sentir saudades da gravidez, mas todos os sorrisos continuará recebendo. Quando ele for bebezinho as pessoas ficarão derretidas, algumas como eu, ficarão melancólicas e dirão quanta saudade tem dos filhos bebezinhos. Quando maiorzinhos, arrancarão sorrisos por serem sapecas e inocentes. Você vai errar, mas vai acertar muito mais. E, sim, vai querer criar lindas lembranças para ele, mimá-lo e educá-lo para que seja uma boa pessoa e torcer para que tenha muitos amigos e seja muito feliz. Você entendeu tudo, Ana!
    O Lucas também nasceu no S. Luiz - Itaim. Excelente! Um beijo!

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